Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Ontem, voltando da casa da minha mãe, coloquei Belchior no fone como quem acende uma luz discreta por dentro. A estrada corria lenta e, sem perceber, fui voltando ao menino que ouviu Fotografia 3x4 pela primeira vez sentado no chão frio da sala. Na mesma época eu lia Vidas Secas, e era como se a aridez de Graciliano explicasse um país inteiro enquanto Belchior explicava a mim. Foi ali que descobri a força das palavras, o poder de desmontar o mundo e remontá-lo com outra alma. Até hoje escutar Belchior é abrir uma porta interna. Ele fala de nós como quem nos conhece há séculos e, mesmo sem querer me comparar a ele, sei que moldou muito do que sou.
A vida de Belchior começa antes dele, num sobrado grande e barulhento em Sobral. Nasceu em 1946, um entre vinte e três filhos, cercado de poeira, sol e movimento. Era o menino silencioso que observava mais do que falava, como se já soubesse que a vida adulta seria barulhenta demais. A poesia chegou cedo, a música também, e o seminário dos Capuchinhos foi menos vocação religiosa e mais busca por silêncio. Lá estudou filosofia, latim, literatura e canto gregoriano. Aprendeu que perguntas movem mais que respostas e que o mundo cabia numa frase bem construída. Quando entrou em Medicina, descobriu rápido que não queria curar corpos, mas tentar compreender angústias.
Ao lado do Pessoal do Ceará, encontrou o ambiente que precisava. A ditadura militar apertava o país, as universidades eram vigiadas e qualquer movimento artístico ganhava suspeita automática. Seus versos eram profundos, inquietos e difíceis de rotular. Não combinavam com neutralidade. Em 1967, venceu um festival com Na Hora do Almoço e conquistou a chance de tentar a vida no Sudeste. No Rio e em São Paulo, fez bicos, passou fome, datilografou textos, dormiu em pensões e escreveu sem parar. Mesmo sem ter sido censurado diretamente, era observado. Seu tipo de poesia, existencial e crítica, tocava em temas que incomodavam o regime sem dar a ele uma brecha formal para calá-lo.
Em 1974, lançou Mote e Glosa. Dois anos depois veio Alucinação, e o país encontrou o poeta que ainda não sabia que precisava. Belchior atravessou a ditadura com sutileza e força. Suas músicas não descreviam a repressão; descreviam a sensação de viver sob ela. Falavam de roupas que não servem mais, identidades engessadas, juventudes desiludidas, promessas quebradas. Era política por reflexão, não por slogan. Era crítica sem grito, e talvez por isso mais poderosa. Enquanto o país fingia respirar, Belchior radiografava o que faltava no coração das pessoas. Não houve censura formal porque ninguém sabia exatamente onde cortar. Ele escrevia sobre si, mas todos se reconheciam.
No mesmo período, sua vida pessoal tinha outra trama. Casou-se com Ângela Henman, com quem teve dois filhos, Mikael e Camila. Construíram uma família longa, bonita e cheia de pequenas rachaduras. Belchior era intenso e ausente, amoroso e distante, preso à arte mais do que ao ritmo cotidiano. Quando vieram à tona duas filhas fora do casamento, o casamento desmoronou. Em 2007, divorciou-se. No mesmo ano, desapareceu da vida pública.
O desaparecimento virou mito, mas a verdade é mais humana. Belchior era um homem imenso por dentro, sempre sentindo faltar alguma parte invisível. Buscava uma clareza impossível, uma paz incompatível com quem pensa demais. O sumiço foi menos fuga e mais tentativa de sobreviver a si mesmo. Ao lado de Edna Prometheu, percorreu São Paulo, Uruguai, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Mudavam de cidade como quem troca de pele. Deixavam objetos como quem abandona versões antigas. A família acreditava que Edna o isolava. Vizinhos diziam que ele parecia tranquilo. Talvez nenhum lado estivesse errado. Belchior nunca coube por inteiro na percepção de ninguém.
Nos últimos anos, mergulhou na tradução de Walt Whitman, e isso diz mais sobre ele do que qualquer teoria. Whitman é o poeta das multidões internas, o homem que diz que cada pessoa é um universo. Traduzir Whitman é olhar para dentro com brutal honestidade, é tentar aceitar que somos muitos em um só corpo. Belchior buscava nele um espelho que não quebrasse. Era sua forma de se reler, de se traduzir, de tentar entender quem era esse homem que carregava o mundo por dentro e, ao mesmo tempo, queria desaparecer dele.
Em 30 de abril de 2017, morreu dormindo, vítima de ruptura da aorta, em Santa Cruz do Sul. Partiu em silêncio, como viveu seus últimos anos. No funeral estavam Ângela, os filhos, a família de Sobral e um país que ainda tenta entender que alguns artistas não morrem nem somem: apenas se transformam em presença permanente.
Belchior permanece como um romance aberto. Um homem de vinte e três infâncias, de lucidez rara, de dores profundas e metáforas afiadas. Um poeta que atravessou a ditadura com inteligência, que viveu o amor com imperfeição, que enfrentou a própria alma com coragem. É o nosso desaparecido mais presente. Vive no que cantou e no que calou, nos silêncios que deixou e nas perguntas que continuam ecoando. E, nos dias de hoje, quando o país parece andar em círculos, quando tentamos entender o que somos e para onde vamos, é impossível não sentir a falta dele. Belchior seria capaz de explicar como ninguém este Brasil que tropeça, insiste, recomeça e tenta não perder a própria alma. Faz falta porque fazia sentido. Faz falta porque nos ensinava a nos enxergar. Faz falta porque, mesmo ausente, ainda é o poeta que ilumina o escuro.
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