Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira





Certa vez ouvi uma frase, e não me lembro de quem, que dizia que leva-se uma vida inteira para se construir um homem de bem, mas basta dois minutos de distração para destruí-lo, como num golpe samurai que você só percebe depois que já caiu no chão. E sempre que penso nisso, lembro de Wilson Simonal, porque sua história parece ter sido escrita justamente para provar essa máxima com precisão quase cruel. Ele foi brilho, foi inventividade, foi comando de palco, foi alegria coletiva, e ainda assim bastou um único desvio, uma fresta na armadura, para que toda a construção de décadas fosse derrubada com uma velocidade que a própria vida não conseguiu acompanhar. Mas para entender tudo isso, antes de chegarmos ao abismo, é preciso reconhecer quem foi de verdade Wilson Simonal, e eu sei que você que está aqui me lendo já deve ter alguma lembrança dele, alguma imagem solta, alguma canção antiga, e talvez esteja curioso para reencontrar esse artista que o Brasil quase perdeu para sempre.

Wilson Simonal nasceu em 26 de fevereiro de 1938, no Rio de Janeiro, e desde cedo carregava aquele tipo de luz que não se acende, simplesmente existe. Quando começou a cantar nos anos 60, foi como se o palco tivesse encontrado seu dono definitivo. Simonal não era apenas uma voz; era presença cênica, era magnetismo, era ritmo que escapava do corpo como se fosse parte natural da respiração. Ele inventou o palco moderno sem que ninguém tivesse pedido, criando um tipo de artista que comandava a plateia como um maestro do improviso. Músicas como “País Tropical”, “Sá Marina”, “Meu Limão, Meu Limoeiro” e “Nem Vem Que Não Tem” ecoaram pelo país como se fossem parte do próprio ar da época. Era elegância, era humor, era suingue, era arrogância no melhor sentido do termo, aquela autoconfiança que incomoda quem nunca teve coragem de ser grande.
A trajetória de Simonal parecia linear, ascendente e inevitável, até que um ponto mínimo, quase banal, alterou todo o curso de sua vida. Seu contador, Raphael Viviani, desviava dinheiro. Simonal o demitiu. Eles brigaram. O contador o processou. Num momento de impulsividade e talvez de orgulho ferido, Simonal recorreu a dois homens ligados ao DOPS para pressionar o ex-funcionário a confessar. O contador foi sequestrado e intimidado. Não houve tortura comprovada, mas houve violência psicológica. Simonal foi condenado por extorsão. Um erro grave, sem dúvida, mas ainda assim um erro que poderia ter sido corrigido no âmbito comum da vida, como tantos outros artistas já cometeram. O problema é que vivíamos um Brasil que não perdoava ambiguidades, especialmente no campo político, e aquela escolha precipitada abriu a porta para algo muito maior, algo que nem Simonal, nem a história, nem a mídia souberam conter.
A cobertura da imprensa foi avassaladora. O jornal “O Pasquim”, expoente da oposição cultural, transformou o caso em escândalo permanente. E então o golpe fatal apareceu: um documento interno do DOPS, fruto de erro burocrático, listava Wilson Simonal como colaborador ou agente, um registro administrativo que, por si só, não significava nada, mas que no calor político da época soava como prova definitiva de que ele seria um dedo-duro, alguém que delatava colegas para o regime militar. A mídia transformou o boato em fato. E a classe artística, já traumatizada por exílios, perseguições e censura, reagiu com repulsa imediata. Em poucas semanas, Simonal foi expulso do próprio ofício, boicotado sem defesa, julgado sem processo, condenado sem chance de retorno.
O meio artístico, majoritariamente alinhado contra a ditadura, viu no episódio um símbolo perfeito de traição. Simonal nunca fora engajado politicamente, nunca fizera parte do núcleo intelectual da MPB, nunca cultivara o discurso de resistência. Ele era o homem do show, do entretenimento, do povo. E, para muitos, isso era quase imperdoável. A incoerência era profunda: um artista que não se pretendia político foi arrastado para o centro de uma disputa que ele nunca quis disputar. E pior: era um artista negro, vindo de origem humilde, que ousou ocupar um espaço de protagonismo que a elite cultural brasileira, majoritariamente branca, não estava pronta para dividir. Sua queda funcionou, para alguns, como uma espécie de correção simbólica: o negro que voou alto demais teve as asas cortadas para que a ordem fosse restaurada. Se havia inveja? Havia. Se havia racismo? Sem dúvida. Se havia necessidade de um bode expiatório? Sempre há.
Enquanto isso, Simonal via sua carreira desaparecer diante dos próprios olhos. Tentou voltar aos palcos, tentou gravar, tentou explicar, tentou provar sua inocência, mas era como tentar remar contra um mar que havia decidido engoli-lo. O boicote era absoluto. Ele oferecia shows gratuitos. Ninguém aceitava. A morte profissional antecedeu em décadas a morte real. E ele, que um dia comandou multidões, passou os últimos anos lutando para comandar a própria sombra.
Simonal morreu em 25 de junho de 2000, aos 62 anos, vítima de insuficiência hepática decorrente de cirrose. Quando finalmente começaram a surgir documentos, depoimentos e investigações mostrando que ele nunca havia sido informante da ditadura, que o documento do DOPS era um erro, que tudo não passara de uma sequência trágica de equívocos e preconceitos amplificados pela imprensa e pela classe artística, ele já não estava aqui para receber de volta o que lhe foi tirado. Sua inocência histórica foi reconhecida tarde demais.
Essa é a parte que mais me atravessa, porque a mídia sempre foi um pouco sacana com quem está em evidência, e o cancelamento não é um hábito novo; ele já existia muito antes de inventarem a palavra, e se duvidar existe desde a época de Jesus, quando a multidão escolheu quem ia para a cruz e quem seria poupado. O caso de Simonal nos lembra que a opinião pública age rápido, julga antes de entender, pune antes de pensar, e às vezes destrói uma vida inteira por causa de dois minutos de distração. E por isso contar sua história hoje é um exercício de memória, uma forma de devolver humanidade a alguém que a perdeu pelas mãos de um país que ainda não sabe lidar com seus próprios heróis.
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