Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira




Vocês me pediram bastante, e eu fiz essa cronica com muito carinho nea noite de sábado. Espero que vocês gostem.

Escrevi este texto ouvindo Elis Regina enquanto uma taça de Almadén descansava ao meu lado e o cigarro queimava esquecido no canto do cinzeiro, mas nem deu tempo de beber ou de dar um trago. O texto simplesmente veio, como se fosse psicografado, como se as palavras estivessem prontas antes de eu tocá-las. E talvez seja porque falar de Elis, pisciana nascida em 17 de março de 1945, é entrar num território em que a alma sempre fala primeiro. Ela veio ao mundo em Porto Alegre, filha de Ercy Carvalho Costa e Romeu Silva Pontes, num lar simples onde tudo era apertado, menos a vontade de viver. Cresceu cercada pelos irmãos, numa casa onde a infância tinha cheiro de fogão aceso, de rádio antigo e de esperança espremida entre contas e sonhos. Ercy, mulher firme, sensível e orgulhosa da filha precoce, tentava impor rotina e disciplina, mas Elis já carregava aquela inquietação típica de quem nasce destinada a transformar o próprio destino em música. Era pequena, mas parecia perceber que havia mais coisa no ar do que os adultos conseguiam explicar. Enquanto outras crianças brincavam no pátio, ela ouvia o rádio como quem estuda um mapa secreto. E ali, naquela menina de olhos enormes e sensibilidade feroz, nasceu o risco mais bonito que um ser humano pode carregar: a coragem de sentir tudo ao mesmo tempo.

No início da década de 60, quando tinha apenas quinze para dezesseis anos, Elis já parecia empurrada por uma espécie de tempestade íntima, dessas que não pedem licença para existir. Enquanto muitas jovens ainda tentavam entender quem eram, ela já subia em palcos com a fúria de quem não nasceu para passar despercebida. Era pequena no tamanho, mas carregava um mundo inteiro na garganta. Um furacão compacto, elétrico, impossível de ignorar. E quando chegou 1965, com apenas vinte anos, o destino abriu a cortina como se dissesse: agora. No Festival de Música Popular Brasileira, Elis entrou no palco para cantar “Arrastão” como quem rompe uma barragem. O Brasil assistiu, atônito, a uma menina que não interpretava, mas desencarnava dentro da própria voz. Ela puxava a rede como quem puxava o país inteiro para dentro de um único verso, e cada nota parecia um golpe de luz. E enquanto escrevo estas linhas, meu caro leitor ou leitora, acontece algo quase sobrenatural: “Arrastão” começou a tocar aqui. É poderoso demais perceber que algumas histórias simplesmente se conectam sozinhas, como se a própria Elis viesse lembrar que certas vozes não se explicam, apenas se escutam.

Quando Elis entrou nos anos sessenta, especialmente depois de 1964, passou a viver num país que amanhecera mais silencioso do que deveria. A ditadura ainda afiava suas garras, mas já se sentia no ar a vigilância que crescia a cada dia. Elis, livre por natureza, batia de frente sem fazer força, porque sua simples existência contrariava a lógica do medo. Em 1965, quando venceu o Festival com “Arrastão”, chamou tanta atenção que logo virou alvo de olhos desconfiados. Documentos do DOPS mostram que seu nome foi registrado e monitorado não por atos concretos, mas por sua postura considerada “insubmissa”. Em 1969, depois de uma turnê pela Europa, voltou dizendo abertamente que o Brasil vivia sob repressão. A imprensa conservadora a atacou com violência, chamando-a de antipatriota, e setores do governo pressionaram para que ela se retratasse, o que fez de forma seca, sem desmentir o que pensava. Em 1970, ao cantar o Hino Nacional no Fantástico, interpretou com tamanha seriedade que militares chegaram a discutir se aquilo seria uma crítica velada ao regime. Outros episódios aparecem em relatórios internos: foi chamada para prestar esclarecimentos, teve letras analisadas verso a verso e recebeu classificações como “perigosa para a juventude” por seu temperamento inflamável. E ainda assim, nada a dobrava. Elis reagia apoiando artistas sufocados pela censura. Cantou Chico Buarque quando ele não podia aparecer. Gravou Taiguara num período em que ele acumulava mais de cinquenta músicas proibidas. Reinterpretou obras de Geraldo Vandré, mesmo depois de ele ser perseguido e obrigado a se exilar. Defendeu Aldir Blanc e João Bosco quando “O Bêbado e a Equilibrista” quase foi barrada. E frequentemente usava entrevistas para elogiar compositores que viviam com suas obras presas em gavetas pela caneta da censura. Cada gesto dela rachava um pouco o muro do silêncio. Era afiada, poderosa, feroz e teimosamente livre. Nenhuma farda suportava tanto brilho desobediente. E talvez por isso, quando penso nesse período, a música que me atravessa é “O Bêbado e a Equilibrista”. Não pela leitura sentimental, mas pela metáfora exata da era: a equilibrista que insiste, o país que cambaleia, a esperança que persiste mesmo quando tudo parece ruir. Elis era isso. A mulher que atravessou o fio tenso da história com o coração do Brasil pendurado na respiração.

Quando Elis entrou nos anos setenta, já com seus vinte e cinco, vinte e seis anos, carregava uma maturidade que parecia maior do que o tempo que tinha vivido. Sua vida pessoal e sua carreira avançavam como duas forças que se chocavam e se iluminavam ao mesmo tempo. Casou-se, separou-se, amou intensamente, teve filhos enquanto gravava discos que viravam referência no dia em que eram lançados. Era mãe, artista, mulher, e nada nisso era simples. Havia dias em que ensaiava até a exaustão e voltava para casa com o peito cheio de dúvidas, tentando equilibrar a demanda do mundo com a demanda interna, que sempre foi a mais voraz. Mas ainda assim entregava tudo no palco. Cada música parecia uma confissão, cada interpretação um risco emocional. Quando gravou com Tom Jobim, aos vinte e nove anos, viveu um encontro artístico tão imenso que até as divergências entre os dois soavam grandiosas. E entre turnês, prêmios, estúdios e lágrimas guardadas, Elis construía seu próprio estilo de existir: intenso, honesto, indisciplinado, feito do tipo de verdade que ninguém consegue segurar sem se machucar um pouco. Ela vivia como se o tempo fosse curto demais para a quantidade de vida que tinha dentro dela.

Mas, fora dos palcos, Elis era ainda mais humana do que o público imaginava. Era doce e explosiva, generosa e impaciente, carinhosa ao extremo, mas com um senso crítico feroz que também se voltava contra ela mesma. Tinha mania de perfeição e uma sensibilidade tão alta que às vezes parecia que o mundo a feria com uma facilidade injusta. Seus filhos lembram que ela chegava cansada, mas nunca deixava de sentar no chão para brincar. João Marcelo conta que ela chorava ouvindo música, até as mais simples, como se cada melodia abrisse uma pequena janela dentro dela. Pedro Mariano diz que ela abraçava forte, como se temesse perder alguém. E Maria Rita, mesmo muito pequena quando a perdeu, cresceu ouvindo histórias de uma mãe que vivia com o coração sempre no volume máximo. Elis cuidava, errava, tentava, explodia, voltava, pedia desculpas, ria alto, amava os filhos com uma intensidade que só poderia vir de alguém que amava a própria arte na mesma medida. Era uma mulher que vivia o que sentia e sentia tudo o que vivia.

E no entanto, com toda essa força que carregava, havia em Elis uma exaustão silenciosa que o país não soube enxergar. O início dos anos 80 foi especialmente cruel com ela. Trabalhando demais, sentindo demais, cobrando demais de si mesma, Elis vivia numa intensidade que parecia sempre à beira de transbordar. Era uma mulher que buscava se superar todos os dias, mesmo quando isso já a consumia. Aos trinta e seis anos, no dia 19 de janeiro de 1982, seu corpo finalmente cedeu. A autópsia apontou a mistura fatal de cocaína com álcool, e essa revelação caiu sobre o Brasil como uma bomba emocional. O público não sabia, ninguém sabia. Porque Elis era obsessivamente profissional. Nunca falhava em estúdio, nunca chegava atrasada, nunca subia ao palco sem estar inteira. Ela era tão disciplinada, tão séria, tão dona do próprio ofício, que a ideia de qualquer descontrole parecia simplesmente inconcebível. Por isso, quando o país descobriu a causa da morte, não foi apenas tristeza; foi incredulidade, choque, negação. Muita gente recusou acreditar. Como uma artista tão perfeita no palco, tão exigente, tão rigorosa consigo mesma, poderia estar travando batalhas invisíveis? E a mídia, voraz como sempre é diante de tragédias, explorou esse choque com manchetes dramáticas, muitas vezes cruelmente sensacionalistas, tentando reduzir sua complexidade a uma caricatura, como se uma vida inteira pudesse ser explicada por uma única fração de segundo. Reportagens repetiam a causa da morte como se fosse um espetáculo, como se a intimidade dela pertencesse ao país inteiro. O que poucos compreenderam na época é que Elis não era desregrada. Não era inconsequente. Era humana, profundamente humana, vivendo sob a pressão de ser perfeita sempre, amada sempre, brilhante sempre. E, como tantos artistas sensíveis demais para a própria pele, buscava às vezes pequenas fugas para anestesiar o mundo que parecia doer demais. Mas quando a notícia se espalhou, o Brasil congelou. Rádios mudaram a programação. Pessoas choravam nas ruas. Artistas se abraçavam sem conseguir falar. No velório, milhares se comprimiram em silêncio, porque naquele momento o país percebeu que tinha perdido não apenas uma voz, mas um pilar emocional. A morte de Elis arrancou uma cor da música brasileira, um tipo de intensidade que não volta. A arte perdeu uma intérprete que cantava com a vida toda, sem sobrar nada. E nós perdemos alguém que parecia sentir por todos. O silêncio que ficou no lugar dela não era ausência de som. Era ausência de alma.

E talvez, no fim das contas, Elis Regina tenha sido exatamente isso: um clarão que passou tão rápido que o mundo levou décadas para entender o que tinha acontecido. Há artistas que cantam, e há artistas que acendem. Elis acendia. Iluminava tudo, inclusive o que não queria ver. E enquanto escrevo este fechamento, o destino resolve fazer sua pequena peça teatral: começa a tocar “O Bêbado e a Equilibrista”, como se o universo soubesse que essa música não é apenas um clássico, mas a metáfora mais precisa da própria vida dela. Porque Elis foi exatamente isso, a equilibrista que caminhou sobre o fio da história com o coração nas mãos, tropeçando, brilhando, se ferindo, se levantando, amando demais, sentindo demais, vivendo demais. E não tem como negar que, de alguma forma misteriosa, existe um pouco de Elis em cada um de nós. Porque quando uma pessoa toca um país inteiro, ela se espalha. Ela vira raiz, vira memória, vira semente plantada no futuro, como se sua vida fosse um efeito borboleta afetivo que continua se desdobrando muito depois do último aplauso. Quem impacta tanto assim não termina, se multiplica. E talvez por isso, no final de tudo, reste uma verdade simples e poderosa, daquelas que ninguém discute porque sente antes de entender: Elis Regina não morreu; ela virou uma frequência invisível que vibra toda vez que alguém sente mais do que consegue explicar.

Siga-me para receber diariamente histórias que farão você refletir sobre o mundo em que vive

Nenhum comentário