Eu sempre me perguntei quem era, afinal, a tal Tigresa do Caetano Veloso



Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira 


🎶 Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel. Uma mulher, uma beleza que me aconteceu.🐅🎶

Sempre que essa música começa, sinto como se ela viesse envolta numa fumaça quente, meio dourada, meio cinematográfica, daquelas que a gente não sabe se vem de uma boate dos anos 70 ou de um sonho. Ela tem um poder estranho de hipnotizar. E talvez por isso eu sempre fiquei com essa dúvida presa no canto da cabeça. Quem era essa figura tão vívida que ele descreve? Quem era essa mulher que parecia arranhar o mundo com elegância?

E já aviso logo antes que alguém venha dizer que eu estou atrasado: eu sei, eu sei, não estou reinventando a roda. É só que eu realmente não sabia. Eu nasci em 90, eu peguei a cultura pop pelo braço, não pelo pé, então me deem um desconto carinhoso. E aposto que tem mais gente que também não sabe e não vai admitir.

Essa curiosidade antiga me cutucou outro dia e eu resolvi fazer aquilo que qualquer criança dos anos 90 faria se tivesse crescido sem internet e ganhado uma internet depois: fui pesquisar como quem monta um cubo mágico misterioso. Uma entrevista aqui, outra acolá, uma fala do Caetano, um comentário perdido num programa antigo, e de repente as cores começaram a se alinhar.

A primeira pista estava logo na abertura da música: as unhas negras. E aí vem a frase que muda tudo. Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu. Isso não é só poesia, isso é quase um retrato. Essa imagem tem uma dona clara: Zezé Motta.

Na década de 70, Zezé não passava. Ela acontecia. Era uma presença que virava a esquina antes do resto das pessoas. Pele de ouro marrom, como Caetano escreveu. Unhas pretas. Batom preto. Uma estética tão própria que parecia coisa de outro tempo, ou de um tempo que só ela já vivia. Era uma artista completa num Brasil que adorava fingir que mulheres negras não estavam ali. E talvez por isso mesmo ela brilhava mais.

Só que Caetano, desse jeito dele de fazer ligações invisíveis, não se limitou a Zezé. Ele fez um mosaico. Misturou musas. Colou vidas. E aí a Sônia Braga entra pela fresta da letra, quase numa piscadela. Quando ele menciona o musical Hair, sabemos que quem realmente fez Hair foi a Sônia. Mas naquela época as duas circulavam no mesmo imaginário: jovens, lindas, ousadas, com aquela aura de corpo livre e mente pulsante que definia uma geração atravessada pela ditadura e pela vontade frenética de viver apesar dela.

A música pula de 1966 para o Frenetic Dancin’ Days, e isso não é só um salto temporal. É uma textura histórica inteira. 1966 foi o ano das ruas fervendo, dos estudantes enfrentando a repressão, da censura tentando apagar qualquer fagulha de pensamento. Já em 1977, o Dancin’ Days de Nelson Motta brilhava como uma promessa de respiro. As luzes estroboscópicas pareciam dizer que o país ainda sabia dançar, mesmo amarrado por dentro.

Zezé transitava entre essas camadas com uma naturalidade quase ritual. De um lado, consciência política e racial. Do outro, brilho, noite, palco, música, performance. Ela era plural. Ela era múltipla. Ela era o tipo de mulher que não cabia numa linha só. E talvez por isso Caetano tenha precisado de uma canção inteira para tentar defini-la.

É longe de qualquer intenção de sexualizar corpo nenhum aqui, mas existe uma coisa na letra que atravessa a gente de um jeito difícil de explicar. A densidade que Caetano coloca na personalidade dessa tigresa é tão forte que a gente entende por que alguém se apaixona por uma mulher assim. Ou por uma presença assim. Ou por uma ideia assim.

Não estou falando sobre desejo. Eu me refiro aqui ao magnetismo. É aquela sensação de estar diante de algo grande demais, bonito demais, intenso demais, volumoso demais.

Acredito que, independente de quem ouça essa música, de quem seja, isso não muda o fato de que a canção é hipnotizante, é cortante. E pra mim é uma das minhas favoritas e uma das que menos fazem sentido na minha vida. Porque eu não tenho uma tigresa. E nem sei se conseguiria ter uma. E nem sei se tigresas são para se ter.

Tem algo no toque do violão, na voz do Caetano, que parece um poema reclamado e cantado ao mesmo tempo. Ele não canta a Tigresa como quem canta uma mulher. Ele canta como quem narra o andar de um felino, de um gato grande, de um tigre avançando devagar.

A música tem aquela malemolência de bicho que se move antes de atacar, com o dorso subindo e descendo numa curva lenta, e as patas se encaixando exatamente onde a outra pisou. É quase uma coreografia natural, uma precisão delicada.

Parece que a canção inteira imita esse caminhar: primeiro ela ronda, depois observa, depois se aproxima. É como sentir o olhar da tigresa pousado em você, firme e atento, sem pressa nenhuma. E a gente fica dividido entre medo e fascínio, como quem sabe que está diante de algo que pode te engolir e, ainda assim, não consegue parar de olhar.

O mais curioso é que Zezé levou anos para acreditar que a música era inspirada nela. Achava que era para Sônia. Só depois Caetano confirmou que a figura física da Tigresa veio mesmo de Zezé. Tem algo tão bonito nisso, como se a própria canção fosse tímida de revelar sua musa.

No fim das contas, enquanto eu voltava para a música depois dessa pequena investigação, senti aquela nostalgia boa que só a cultura pop dá quando se revela. Como se eu tivesse voltado alguns minutos para dentro do Brasil das luzes dançantes do Dancin’ Days, das ruas quentes de 66, dos palcos onde a liberdade era ensaiada antes de ser vivida.

Como se a voz da Zezé, a presença da Sônia e a caneta do Caetano se encontrassem num corredor de tempo onde tudo ainda cheirava a novidade.

E eu não sei se alguém ainda ouve Caetano assim, com esse carinho meio arqueológico, mas eu ouço. E acho bonito demais descobrir que a Tigresa existiu porque existiu uma mulher capaz de cortar o ar quando passava. Uma mulher que acendeu uma época. Uma mulher que ainda brilha quando a música começa.

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