Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira

 



Nos últimos dias, para desviar um pouco a mente, resolvi ler a biografia “Mussum Forévis: Samba, Mé e Trapalhões”, achando que seria apenas uma visita mansa à nostalgia, uma forma de reencontrar aquele pedaço da infância que ainda vive na memória como se fosse luz antiga, mas conforme eu avançava nas páginas fui percebendo que o Mussum que eu conhecia pela televisão não correspondia ao homem real, que a figura que apareceu na minha infância era apenas a ponta visível de uma vida muito mais complexa, rica e surpreendente, e talvez a parte mais curiosa disso tudo seja pensar que naquela época a gente não tinha internet nem fluxo constante de informação, então a televisão entregava só um recorte, um enquadramento estreito, e o resto ficava escondido atrás da fantasia, e foi assim, quase sem intenção, que descobri que o Mussum verdadeiro era maior, mais sofisticado e mais profundo do que o personagem que o Brasil aprendeu a amar.

Antônio Carlos Bernardes Gomes nasceu no Morro da Cachoeirinha, no Rio de Janeiro, em meio a uma infância dura que ensinava cedo a segurar o mundo com as duas mãos, e foi criado por Dona Malvina, que não apenas era a força moral da casa, mas também a origem da frase que acompanharia Mussum por toda a vida e que ele repetia com orgulho quase pedagógico, a famosa frase que dizia “tem burro preto, mas preto burro não dá”, e era como se a mãe dissesse que nenhum destino está preso ao tom da pele e que o único peso verdadeiro era a ignorância que o racismo tentava impor, e essa lição simples e brutal carregou Mussum até o fim dos seus dias, conduzindo suas escolhas, suas falas e seu compromisso com a dignidade.

Antes de qualquer fama, ele entrou na Força Aérea Brasileira, onde trabalhou como mecânico por quase uma década e onde, ironicamente, o apelido que o consagraria nasceu como uma brincadeira entre militares; disseram que ele era escorregadio e cheio de manha como um peixe chamado “mussum”, e embora no início tenha estranhado a comparação, mais tarde transformou o apelido em identidade pública, e foi também nesse período que a música se revelou como sua verdadeira espinha dorsal, porque antes de ser humorista ele já era sambista, e fazia questão absoluta de se apresentar assim, de lembrar que era músico, percussionista, filho da Mangueira e dos terreiros de ritmo, e que sua vocação primeira era o samba.

Nos anos 1960, ele entrou para “Os Originais do Samba”, um grupo que reinventou o gênero ao criar uma estética de espetáculo, com figurino, coreografia e presença cênica, e ali Mussum floresceu como artista completo, tocando ao lado de Elis Regina, Simonal e Jorge Ben, abrindo show para Frank Sinatra, viajando o mundo e se afirmando como músico de extrema competência, e há beleza em reconhecer que o homem que milhões conheceram como comediante tinha, na música, seu maior orgulho, seu chão mais firme e sua identidade mais profunda.
Quando entrou em “Os Trapalhões”, em 1974, encontrou não apenas o sucesso estrondoso, mas também uma tensão interna que só hoje conseguimos compreender com clareza, porque embora seu humor fosse natural, inventivo e cheio de musicalidade, havia um desconforto real com certas piadas, principalmente aquelas que reforçavam estereótipos raciais ou que o reduziam ao personagem do bêbado permanente, e por mais que gostasse de beber socialmente, como qualquer pessoa, ele temia que aquela caricatura se colasse de forma injusta ao seu corpo, especialmente porque era um dos pouquíssimos homens negros em destaque na televisão, e sabia que, em um país profundamente marcado por desigualdades raciais, qualquer estereótipo tinha força para limitar caminhos e distorcer percepções.

As piadas raciais tão comuns nos roteiros dos anos 70 e 80 eram recebidas muitas vezes como brincadeira, mas existiam frestas por onde entrava a dor, e o fato de que o controle criativo era majoritariamente de Renato Aragão deixava Mussum com menos voz para contestar essas escolhas, mas mesmo assim ele conseguia impor humanidade a um personagem que, em mãos menos sensíveis, poderia facilmente ter se tornado uma caricatura cruel, e fazia isso com inteligência, ritmo, gentileza e um humor jamais maldoso, criando um linguajar próprio com expressões como “cacildis” e “forévis”, transformando cada cena em música, cada queda em coreografia, cada bordão em resistência.

O homem real, longe do palco, era educado, sério, atento, dedicado à família, e parte do encanto de revisitar sua história agora é perceber o tamanho da consciência que ele tinha sobre ocupar um espaço tão grande na televisão, sobre ser referência para tantas crianças negras, sobre ser símbolo de alegria num país que frequentemente tenta esvaziar a complexidade das pessoas negras, e sua luta para proteger sua imagem, sua dignidade e sua identidade artística torna sua trajetória ainda mais impressionante e profundamente admirável.
Quando sua saúde começou a falhar e ele precisou de um transplante de coração, o Brasil acompanhou com apreensão e carinho, e quando ele morreu em 29 de julho de 1994, vítima de complicações pós-cirúrgicas, muita gente acreditou, erroneamente, que ele havia morrido de cirrose, e esse equívoco, repetido por anos, revela justamente o estereótipo que ele tanto temia, porque a verdade é que ele não morreu de bebida, não morreu de excesso, não morreu de vício, e sim de uma falha médica que nada tem a ver com a caricatura que colaram nele, e tanto o livro quanto o filme “Mussum, O Filmis” se esforçam para desfazer essa sombra que nunca lhe pertenceu.

E é curioso pensar que, ao revisitar sua vida agora, tantos anos depois, é como se a infância ganhasse outra camada, como se o Brasil daqueles tempos revelasse uma segunda face que estava ali o tempo todo, escondida atrás das luzes do estúdio, porque descobrir o homem por trás do Mussum é descobrir também outra forma de olhar para nós mesmos, e é isso que torna sua história tão bonita, porque no fim das contas ele foi muito mais do que humor, muito mais do que bordão, muito mais do que estereótipo, e se tornou uma espécie de alegria consciente, uma alegria que sabia de onde vinha e que sabia o peso de existir num país que nem sempre nos permite ser múltiplos, e a melhor homenagem que se possa fazer a ele seja reconhecer que, além de fazer o Brasil rir, ele ensinou o Brasil a respeitar, a ouvir e a entender que por trás de cada sorriso existe sempre uma história que não é simples, que não é rasa e que nunca cabe inteira no palco.

Fonte: Perfil do Facebook de Fagner Oliveira

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