Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Eu aprendi a gostar de basquete antes de entender o jogo. E isso tem nome: Oscar Schmidt.
Tem gente que vira ídolo pelos títulos. Tem gente que vira ídolo porque ocupa espaço dentro da memória da gente. Oscar fez as duas coisas, mas o que fica não cabe em medalha.
Hoje, 17 de abril de 2026, aos 68 anos, ele sai de cena depois de um mal-estar na própria casa, em Santana de Parnaíba. Foi socorrido, levado ao hospital, mas o corpo decidiu encerrar ali. Quinze anos depois de um diagnóstico que parecia uma sentença curta, ele alongou o tempo como alongava um jogo difícil. Em 2011, quando o tumor cerebral apareceu, o roteiro parecia outro. Ele escreveu o próprio.
Eu cresci ouvindo que ele tinha “Mão Santa”. Eu repeti isso sem pensar muito. Era bonito, era fácil, explicava o inexplicável. Até o dia em que eu ouvi ele corrigir, com aquele jeito direto que não pedia licença: “Santa nada. Ela é treinada.”
Pronto! Mas muito mais difícil..
Porque o que ele fazia não vinha de um momento. Vinha de milhares deles. De treino depois do treino. De ficar na quadra até acertar vinte bolas seguidas. De errar a décima nona e recomeçar sem negociar com o próprio cansaço. De arremessar mil vezes quando todo mundo já tinha ido embora. A bola caía como consequência, não tinha nada de milagre ali.
Os números ajudam quem precisa de prova. 49.737 pontos. O maior pontuador da história do basquete. Mais do que Kareem Abdul-Jabbar. Mais do que LeBron James. Cinco Olimpíadas. 1.093 pontos olímpicos. 338 pontos em uma única edição, Seul, 1988. Média de 42,3 por jogo naquele torneio. 55 pontos contra a Espanha em uma partida. Números que parecem erro de digitação até você perceber que são apenas repetição elevada ao extremo.
Se fosse para definir em uma palavra o gigante, eu usaria a EXCELÊNCIA!
Mas tem um dia que sempre volta quando eu falo dele. 1987. Pan-Americano de Indianápolis. Brasil contra Estados Unidos dentro da casa deles. Invictos há décadas. Donos do jogo. Donos do ambiente. Donos da narrativa. Até aquele dia. Oscar lidera. O Brasil vence. Pela primeira vez, eles perdem em casa. Meus caros, aquilo não foi só um título. Foi uma quebra de eixo. Foi o momento em que o basquete brasileiro deixou de pedir licença e foi...
E ele estava no centro disso.
Em 1984, veio o draft. New Jersey Nets. Mesma safra de Michael Jordan. A porta da NBA estava aberta diante dele. Dinheiro, visibilidade, o maior palco do basquete mundial.
Só que existia uma regra naquela época. Jogadores da NBA não podiam defender suas seleções nacionais. Quem fosse para a liga americana ficava fora de Olimpíadas, Mundiais e Pan-Americanos.
A escolha era direta. Ou a NBA, ou a seleção.
Oscar Schmidt decidiu sem hesitar.
Ele abriu mão da NBA para continuar vestindo a camisa do Brasil. Escolheu jogar por uma bandeira em vez de jogar por um contrato. Escolheu estar presente em cada convocação, em cada torneio, em cada momento em que o país precisasse dele.
E mesmo sem a NBA, o mundo sabia quem ele era.
Na Itália, ele virou referência. Transformou equipes como Caserta em potência. Marcou 13.957 pontos em solo italiano. Enfrentou jogadores que iam e voltavam da NBA e manteve o mesmo nível. Não existia contexto em que ele parecesse deslocado. Ele encaixava em qualquer jogo porque o jogo, no fim, obedecia ao que ele fazia.
O respeito atravessava fronteiras. O pai de Kobe Bryant jogou na Itália e levou o filho para ver aquele brasileiro que não parava de pontuar. Assim como eu, Kobe cresceu assistindo Oscar. Cresceu absorvendo aquela obsessão por repetição. Aquela ideia de que o trabalho sustenta tudo. Anos depois, já como lenda, ele ainda citava o brasileiro como influência.
E aí vem uma das ironias mais bonitas da história do esporte. Ele entrou no Naismith Memorial Basketball Hall of Fame sem nunca ter jogado na NBA. Um lugar que, por décadas, parecia reservado para quem passava por lá. Ele entrou pela porta da frente, com discurso emocionante, sendo aplaudido por nomes como Larry Bird e Magic Johnson.
Oscar sempre foi mais do que o jogador.
Ele falava. E quando falava, não tinha meio termo. Humor afiado, sinceridade desconfortável, energia de quem nunca saiu da quadra. Virou palestrante. Uma referência fora do esporte. Levava gente ao riso e, minutos depois, ao silêncio absoluto. Porque ele não vendia uma fórmula exata, uma receita que te levava... Ele contava o processo.
E então, em 2011, surgiu “o carinha”.
Um tumor cerebral. Um adversário que não respeita talento, nem história, nem disciplina. Ele deu um nome. Humanizou. Trouxe para o campo dele. “O carinha pegou o cara errado.” Essa frase diz mais sobre ele do que qualquer estatística.
Vieram cirurgias. Tratamentos. Quimioterapia. Anos convivendo com algo que poderia ter encerrado tudo muito antes. E ele seguiu. Seguiu dando entrevista, seguiu subindo em palco, seguiu sendo ele... do jeito dele. Puxa, é péssimo escrever esse tipo de homenagem, nunca me acostumo. É Horrível lembrar de tudo e dizer Adeus... Mas preciso continuar, né?
Em 2022, tomou uma decisão que muita gente não entendeu. Interrompeu a quimioterapia. Acho que ele não estava desistindo. Ele só estava escolhendo... escolha. Os médicos apontavam controle da doença. Ele queria qualidade de vida. Queria lucidez e manter o que havia por dentro. Queria tempo com a família sem o peso constante dos efeitos colaterais. Ele decidiu como queria viver o fim da própria história. Eu acredito profundamente, que isso exige um tipo de coragem que não cabe em um ginásio. Entende?
Hoje, depois de um mal-estar súbito, ele parte.
E eu fico aqui tentando aceitar que alguém que parecia permanente entrou para o passado. Mas ainda continua. O mesmo velho sentimento de edespedida que eu nunca consigo assimilar direito. Porque tem gente que continua influenciando mesmo depois de sair de cena.
Oscar não me ensinou a arremessar. Eu nunca tive a pretensão. Mas ele me ensinou outra coisa. Me ensinou que repetir o básico com seriedade constrói algo extraordinário. Me ensinou que escolher exige abrir mão. Me ensinou que consistência tem mais peso do que inspiração.
E, principalmente, me ensinou que ninguém chega perto do impossível por acaso.
Hoje o basquete perde a voz mais alta que já teve por aqui. O Brasil perde um símbolo que não cabia só no esporte. E quem cresceu vendo ele jogar perde uma espécie de certeza difícil de explicar.
A certeza de que, em algum lugar, existia alguém que fazia o difícil parecer inevitável.
Oscar “Grandão” Schmidt, tu não foi vencido pelo tempo. Tu usou cada segundo até onde deu.
E quando o jogo terminou, ficou a lição que ninguém consegue apagar:
grandeza não nasce pronta. Ela é construída, dia após dia, por quem decide não parar.
Vá em paz.
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