Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira




Escrever sobre Jô Soares é, para mim, um gesto de gratidão antiga. Quando eu ainda era criança, Jô já era uma figura mítica na televisão brasileira. E veja, isso faz muito tempo. Ele não parecia apenas um apresentador. Parecia uma instituição viva. Um homem em torno do qual pessoas interessantes orbitavam. Artistas, escritores, músicos, cientistas, políticos. Quem se sentava naquele sofá não era apenas entrevistado, era quase consagrado.
Lembro com clareza do esforço quase épico para conseguir ficar acordado até as onze e meia da noite no SBT. Para uma criança, aquilo era uma prova de resistência física e moral. Mas havia algo ali que compensava qualquer olheira no dia seguinte. O Jô Soares Onze e Meia não era só um programa. Era um rito de passagem silencioso. Eu não entendia todas as piadas, mas entendia que havia inteligência ali. E isso bastava.
Curiosamente, minha memória afetiva guarda muito mais o entrevistador do que o comediante. O humorista eu precisei ir atrás depois, como pesquisador curioso, revisitando arquivos, programas antigos, personagens. E quanto mais eu pesquisava, mais claro ficava que o humor nunca foi o ponto final de Jô. Era o método. Uma forma elegante de pensar o Brasil sem precisar levantar a voz.
Jô nasceu em 1938, no Rio de Janeiro, em um cenário confortável demais para durar. Filho de corretor de valores, criado em berço de ouro, viveu no Copacabana Palace, estudou fora do país, passou pelo Lycée Jaccard, na Suíça, e aprendeu cedo a falar várias línguas. Português, inglês, francês, italiano, espanhol. Uma formação rara, especialmente para o Brasil da época. Aos quinze anos, a família perdeu tudo. A fortuna desapareceu. O que permaneceu foi algo muito mais sólido: a dignidade do pai atravessando a pobreza sem espetáculo. Esse episódio moldou Jô profundamente. Ele aprendeu cedo que cair não é o problema. O problema é cair sem estilo.
Ainda jovem, Jô também experimentou a fragilidade do próprio corpo. Em 1968, sofreu um grave acidente de moto enquanto estava na Europa. Quebrou o maxilar, passou por cirurgias delicadas e ficou marcado fisicamente. Não há glamour algum nisso, mas há algo revelador. Mesmo depois de ter o rosto, sua principal ferramenta cênica, literalmente reconstruído, ele nunca transformou a tragédia em autopiedade. Incorporou o episódio à vida e seguiu em frente, como faria tantas outras vezes.
Quando decidiu fazer humor, fez de outro jeito. Antes dele, a comédia brasileira era majoritariamente escrachada, barulhenta, física. Jô trouxe ironia, sátira social, absurdo inteligente. Em Família Trapo e, sobretudo, em Viva o Gordo, criou personagens que pareciam caricaturas, mas eram retratos precisos do país. Capitão Gay combatia o preconceito vestido de rosa. O Reizinho escancarava o autoritarismo miúdo. Vovó Naná ironizava a surdez moral. Zé Galinha profetizava o caos cotidiano. Bira ignorava o óbvio com convicção. Soberano sintetizava a arrogância de classe. Gandola revelava a criatividade corrupta. Aliche e Vantajoso resumiam o jeitinho nacional. Dalva de Oliveira virava homenagem e paródia. Ariel, o anjo atrapalhado, parecia deslocado até no céu. Durante a ditadura, Jô fez algo raro. Criticou sem ser óbvio. Driblou censores com inteligência. Às vezes, fazer pensar é mais subversivo do que gritar.
Em 1988, tomou a decisão mais arriscada da carreira. Saiu da Globo no auge. Queria um talk show diário, nos moldes americanos. A Globo disse não. Achava que o brasileiro não ficaria acordado até tarde para ver alguém conversar. Silvio Santos disse sim. Deu horário, liberdade e confiança. Interrompeu a programação para anunciar a contratação. Jô tornou-se o artista mais bem pago do país. O programa virou hábito nacional. Mudou o relógio biológico do Brasil. Foi tão impactante que a Globo criou a Tela Quente para tentar derrubá-lo. Não conseguiu.
Havia, porém, uma história curiosa entre Jô e Silvio que sempre me diverte e diz muito sobre ambos. Jô tentou por anos entrevistar Silvio em seu sofá. Nunca conseguiu. Silvio sempre recusava com a mesma justificativa, dita com seriedade absoluta. Uma cigana, em Miami, teria lhe previsto que, no dia em que ele concedesse uma longa entrevista, morreria no dia seguinte. Jô ria, ironizava, tentava desmontar a superstição com argumentos racionais, estatísticos, filosóficos. Silvio sorria, balançava a cabeça e permanecia firme. A entrevista nunca aconteceu. Entre o homem da razão absoluta e o homem da intuição mística, venceu a cigana. E, convenhamos, essa pequena derrota também faz parte do charme da história.
Anos depois, quando Jô decidiu voltar para a Globo, foi ético até o último detalhe. Avisou Silvio pessoalmente antes de assinar. Silvio não brigou, não fez drama, não fechou portas. Fez homenagem. Disse que elas continuariam abertas. No Troféu Imprensa de 2017, Jô resumiu tudo em uma frase que já entrou para a história. Metade do que eu sou, eu devo a você.
No campo afetivo, Jô foi um sedutor intelectual. Amou mulheres fortes, ligadas à arte, à cena, à criação. Casou-se com Thereza Eugênia, com quem teve seu único filho, Rafael. Viveu um relacionamento marcante com Mila Moreira, mulher sofisticada, símbolo de elegância. Casou-se depois com Silvia Bandeira, outra presença importante de sua vida. Mais tarde, viveu uma relação profunda com Flávia Pedras, que se manteve mesmo após a separação. Jô a chamava de namorada vitalícia. Foi sua melhor amiga, confidente e companheira até o fim.
Entre esses amores, houve também o relacionamento intenso e formador com Claudia Raia, iniciado nos bastidores de Viva o Gordo. Ele se encantou ao vê-la no musical A Chorus Line. Ela tinha dezessete anos. Ele, trinta a mais. Foi Jô quem sugeriu o nome artístico. Foi Jô quem percebeu uma pinta perigosa e insistiu para que ela procurasse um médico. Era um melanoma. Ele salvou sua vida. Foi também Jô quem encerrou a relação, por amor e lucidez, prevendo que ela se tornaria uma estrela gigantesca. Continuaram amigos. Ela sempre disse que ele foi seu primeiro grande amor e um dos maiores formadores de quem ela se tornou.
Nenhuma relação, porém, foi tão delicada quanto a que Jô manteve com o filho, Rafael. Hoje usamos palavras e diagnósticos que, naquela época, simplesmente não existiam no debate público. Quase nada se dizia. Quase nada se entendia. E talvez por isso mesmo Jô tenha escolhido o caminho da proteção absoluta. Preservou o filho da curiosidade pública, do sensacionalismo, da exposição gratuita. Nunca transformou a vida de Rafael em pauta, discurso ou espetáculo.
E aqui há algo que sempre me chama atenção como leitor atento da biografia humana por trás do personagem público. Que privilégio silencioso foi ser filho de Jô Soares. Um homem instruído, curioso, culto, emocionalmente sofisticado o suficiente para lidar com o que não tinha nome, diagnóstico claro ou manual de instruções. Um pai capaz de amar sem expor, de cuidar sem explicar, de proteger sem precisar se justificar.
Quando Rafael morreu, em 2014, aos cinquenta anos, Jô quebrou uma regra íntima. Chorou em público. Disse apenas que o filho viveu com uma alegria contagiante. Foi pouco em palavras, mas imenso em significado. Ali, o mito abriu uma fresta e deixou ver o pai. E isso dizia mais sobre Jô do que qualquer piada bem escrita.
Há um episódio da vida de Jô Soares que sempre me pareceu revelador, quase definitivo, embora pouco comentado. No início dos anos 1980, sua mãe, Dona Mercedes, morreu após ser atropelada em um dia de chuva no Rio de Janeiro. Um acidente banal, desses que não carregam intenção, mas deixam marcas que atravessam décadas. O motorista do táxi nunca conseguiu seguir em frente. Carregou a culpa como uma sentença pessoal, como se a tragédia tivesse sido escolha.
Cerca de dez anos depois, Jô reencontrou esse homem. Ele ainda vivia aprisionado naquele dia. Ainda se sentia responsável. Jô fez algo raro. Abraçou o motorista e disse, com a serenidade de quem já havia entendido o peso real das coisas: eu não te culpo, foi uma fatalidade, siga sua vida em paz. Não houve discurso, não houve encenação. O perdão ali não foi religioso nem performático. Foi humano. Libertou o outro e, talvez, tenha libertado um pouco a si mesmo. Esse gesto, para mim, diz mais sobre quem Jô era do que qualquer personagem ou entrevista brilhante.
Havia também as manias. Jô colecionava canetas-tinteiro, relógios, trens em miniatura. Vestia-se com rigor estético. Óculos coloridos, ternos sob medida, lenços, gravatas-borboleta. Recusava o estereótipo do gordo desleixado. Transformou o próprio corpo em símbolo de elegância. Morava em um apartamento em Higienópolis que mais parecia um museu, com biblioteca monumental, obras de arte espalhadas e silêncio. Pintava, expunha, tocava bongô e trompete, amava jazz. Era hipocondríaco confesso, leitor obsessivo de bulas, conhecedor de doenças raras. Ria disso tudo, como quem ri de si antes que alguém tente fazê-lo.
Era também um homem da madrugada. Escrevia entre duas e seis da manhã, quando o mundo finalmente parava. Dali nasceram romances como O Xangô de Baker Street, um fenômeno editorial que provou o óbvio. Jô não era apenas um grande entrevistador. Era um grande escritor. Um narrador sofisticado, com domínio de ritmo, ironia e estrutura.
Nos últimos anos, recolheu-se. Quando o programa acabou, em 2016, recusou despedidas melancólicas. Disse que o artista não se aposenta, muda de palco. Morreu em 2022, como quis. Sem velório público. Cercado de poucos amigos. Assistindo a filmes clássicos. Flávia revelou que ele escolheu não prolongar o sofrimento. Até no fim, teve controle da própria narrativa.
Talvez o maior contraste de Jô Soares seja esse. O homem que fazia um país inteiro rir passava madrugadas sozinho, lendo, escrevendo, pensando. Bebia cultura como quem respira. Não para fugir das dores, mas para entendê-las melhor. E talvez seja por isso que ele ainda esteja aqui. Porque alguns homens não desaparecem. Apenas encerram o ato com elegância, deixam o palco mais inteligente do que encontraram.
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