Eva Wilma: Uma atriz completa, dedicada e categórica

 



Eva Wilma entrou na vida do Brasil sem pedir licença, mas também sem jamais se impor. Há artistas que chegam fazendo barulho, outros que se impõem pela ruptura. Eva chegou pela permanência. Ficou. E ao ficar, construiu algo raro: uma relação de afeto contínuo com várias gerações, como se estivesse sempre ali, mesmo quando não estava em cena.
Nascida Eva Wilma Riefle, em São Paulo, ela cresceu num lar atravessado por muitas línguas, muitos sons e uma certa tensão histórica que o tempo não costuma registrar com delicadeza. Filha única de Otto Riefle Jr., metalúrgico alemão vindo da Floresta Negra ainda muito jovem, e de Luísa Carp, argentina de ascendência russa e judaica, Eva foi moldada por uma mistura cultural intensa. Em casa, o pai cantava canções tradicionais alemãs, a mãe trazia o folclore portenho, e a música se infiltrava como linguagem cotidiana. Antes mesmo de entender o mundo, Eva já o escutava.
Os pais apostaram na formação como quem aposta em futuro. Colégios tradicionais, aulas de piano, canto, violão, idiomas. O rigor vinha junto do afeto. Ainda menina, ela já organizava pequenos espetáculos familiares no Guarujá, como se intuisse que reunir pessoas em torno de uma história era uma forma de cuidado. Aos doze anos, promoveu um show beneficente em Campos do Jordão para arrecadar fundos para um hospital. Não era ambição. Era vocação em estado bruto.
O balé foi seu primeiro grande amor. Aos quatorze anos, integrava o São Paulo Ballet, sob a direção de Maria Oleneva. Chegou a excursionar pelo Brasil como bailarina clássica, com disciplina quase militar e uma relação profunda com o corpo e o silêncio do movimento. Ela nunca planejou ser atriz. Planejou dançar. O palco ainda não tinha palavras, só gestos.
A infância, no entanto, não foi feita apenas de música e formação. A Segunda Guerra Mundial atravessou sua casa como um ruído constante. Ser filha de um alemão no Brasil dos anos 40 significava viver sob suspeita. Eva cresceu com medo. Medo da rejeição, medo da perseguição, medo de ver o pai levado. Anos depois, diria que foi ali que aprendeu algo fundamental para sua arte: transformar o medo em presença. O palco viria como resposta.
A transição do balé para a atuação aconteceu quase sem ruptura, como se o corpo tivesse decidido antes da mente. Em 1952, José Renato, um dos fundadores do Teatro de Arena, viu naquela jovem bailarina uma expressividade rara e a convidou para Uma Mulher e Três Palhaços. Eva hesitou. Aceitou. Estreou aos dezenove anos. Nunca mais saiu.
O cinema veio logo depois. Em 1953, participou de A Moça de Ontem e Uma Pulga na Balança, num momento em que os estúdios Vera Cruz buscavam formar uma linguagem nacional. Sua dicção impecável, a postura herdada do balé e a consciência corporal a destacaram rapidamente. Mas foi a televisão, ainda experimental, que transformaria tudo.
O convite de Cassiano Gabus Mendes para protagonizar Alô, Doçura, na TV Tupi, não apenas definiu sua carreira como moldou a relação do Brasil com a comédia romântica. Ao lado de John Herbert, Eva se tornou a namoradinha do país. Cada episódio era uma nova história, novos personagens, novas possibilidades. O programa ficou dez anos no ar. Era ao vivo. Não havia rede de proteção. Ali, Eva aprendeu o tempo da comédia, o risco do erro, a verdade do instante. Abandonou definitivamente as sapatilhas de ponta. O Brasil ganhou uma atriz.
Ela e John Herbert se casaram em 1955, no auge da popularidade. Viraram o primeiro casal querido da televisão brasileira, misturando ficção e realidade numa época em que o público ainda acreditava que tudo o que aparecia na tela era verdade. Tiveram dois filhos, Vivien e Johnnie, e também uma dor pouco falada: a perda de um bebê recém-nascido, um luto vivido em silêncio, como se exigia das mulheres naquele tempo.
Ser mãe nos anos 50 e 60, sendo estrela da TV ao vivo, era viver uma equação impossível. Eva falaria depois sobre a culpa, sobre sair de casa deixando filhos pequenos para se transformar em personagens que o Brasil inteiro esperava. Criou uma disciplina de ferro. Funcionava. Por dentro, apertava.
O casamento terminou em 1976. Antes mesmo da Lei do Divórcio, Eva foi julgada, atacada, moralmente condenada. O país que a amava como namoradinha teve dificuldade em aceitá-la como mulher que escolhe. Durante esse processo, se apaixonou por Carlos Zara, seu par romântico na primeira versão de Mulheres de Areia. O escândalo foi grande. A coragem, maior.
Mulheres de Areia, em 1973, marcou um antes e um depois. Interpretar Ruth e Raquel sem recursos tecnológicos, usando câmera dividida, precisão corporal absoluta e trocas emocionais instantâneas, exigiu dela tudo o que havia aprendido desde o balé. No auge da novela, sofreu um grave acidente de carro. Voltou às gravações nove dias depois, com uma cicatriz no rosto que a própria trama incorporou. O público odiava Raquel, protegia Ruth e escrevia cartas como se fossem pessoas reais. Eva se tornava mito.
Foi também ali que iniciou uma relação de vinte e três anos com Carlos Zara, parceria de amor e de teatro. Produziram peças, desafiaram temas, levaram o público a refletir quando isso ainda causava desconforto. Querida Mamãe, em especial, colocou em cena conflitos familiares e sexualidade feminina num Brasil ainda muito fechado.
Em A Viagem, em 1975, Eva aprofundou sua relação com o drama humano. Diná era ciumenta, imperfeita, contraditória. Amava demais, errava demais. O romance que só se concretizava após a morte tocou um país inteiro e ajudou a popularizar discussões espirituais em plena ditadura. Eva, católica devota, estudou ecumenismo para dar verdade ao papel. Ganhou o prêmio da APCA. Tornou-se, definitivamente, a primeira-dama da teledramaturgia.
Com o fim da TV Tupi, migrou para a Globo em 1980. Ali, mostrou uma versatilidade que poucas atrizes alcançaram. Do drama pesado à comédia rasgada, da mulher sofrida à vilã caricata. Em A Indomada, criou Maria Altiva, personagem que o Brasil amou odiar. Misturou inglês com sotaque nordestino, criou bordões, transformou a maldade em humor. No último capítulo, virou fumaça prometendo voltar. E voltou, na memória coletiva.
No teatro, nunca se afastou. Era ali que dizia encontrar a verdade. Esperando Godot, Um Bonde Chamado Desejo, O Santo Inquérito. Prêmios se acumularam ao longo de décadas. Roquette Pinto, Troféu Imprensa, APCA, Molière. O reconhecimento nunca a afastou do rigor.
Nos últimos anos, reuniu tudo o que havia sido desde menina. Música, histórias, palco e família. Em Casos e Canções, cantava, tocava violão, contava memórias ao lado do filho e do neto. A Vivinha estava inteira ali. Sem personagens. Só presença.
Mesmo internada em 2021, não parou de trabalhar. Estudava roteiro, gravava áudios, ensaiava falas. Faleceu em 15 de maio, aos 87 anos, vítima de complicações de um câncer no ovário diagnosticado poucos dias antes. A despedida foi restrita pela pandemia, mas o luto foi nacional. O Brasil inteiro aplaudiu de longe.
Eva Wilma partiu como viveu. Com elegância, disciplina e uma entrega que não admitia descanso. Deixou mais que personagens. Deixou um jeito de estar em cena e na vida. Um tipo de artista que não grita, não some, não passa. Fica. E quando falta, a gente sente como se tivesse perdido alguém da família.

Fonte: Memória TV Tupi

Nenhum comentário