Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Na cultura brasileira existe um tipo de herói que não carrega espada, não monta cavalo branco e não vence batalha nenhuma na força do braço. Ele vence na cabeça. na palavra e no improviso.
Existe personagem mais brasileiro?
O nome dele é João Grilo.
Quem conhece as histórias do sertão já encontrou esse sujeito em algum canto da memória. Magro, pobre, meio amarelado de fome, aparência de quem não intimida ninguém. Mesmo assim, dono de uma inteligência que resolve problema que muito poderoso jamais conseguiria resolver. Como? Não sei. Só sei que foi assim...
João Grilo vive nas histórias do povo. Anda pelas narrativas da literatura de cordel, pelas feiras, pelas conversas de estrada, pelas histórias contadas em voz alta muito antes de virar livro. Ele engana coronel, confunde padre ganancioso, enrola juiz e até enfrenta o próprio diabo quando a situação aperta.
A arma dele sempre foi uma só.
A inteligência. Afinal, só sobrevive a espécie que melhor se adaptar. Darwin concordaria.
Esse personagem atravessou o oceano junto com histórias antigas da Península Ibérica. Tem parentes distantes em figuras picarescas como Pedro Malasartes. No Brasil, porém, ele ganhou poeira vermelha de estrada, humor sertanejo e fome de sobrevivente. Tornou-se outra coisa...Tornou-se profundamente brasileiro (Aqui eu escrevi com orgulho e dos bons.)
No início do século XX, o cordelista João Ferreira de Oliveira ajudou a espalhar essas histórias com o folheto As Proezas de João Grilo. Mesmo assim, João Grilo já caminhava pelo imaginário popular muito antes de virar papel impresso. Ele representa o sujeito que enfrenta um mundo grande demais usando aquilo que ninguém consegue tirar dele: a astúcia.
Eu sempre gostei desse personagem. Mas durante muito tempo eu não fazia ideia de como ele se conectava com um dos maiores escritores que este país já produziu.
Essa ligação apareceu de forma curiosa.
Quando Ariano Suassuna morreu, em 2014, encontrei uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça. Em algum lugar estava escrito: morreu o "GRILO" mais inteligente do mundo.
A frase ficou martelando. Me lembro. Sorte que ja existia o Google.
Eu já conhecia Auto da Compadecida. Já conhecia João Grilo e seu parceiro Chicó. Mesmo assim, aquela comparação me provocava uma curiosidade enorme.
Por que grilo?
Foi aí que comecei a investigar essa história.
Quanto mais eu lia, mais percebia que aquela frase tinha uma precisão impressionante. Ariano Suassuna carregava muito do espírito desse personagem. A inteligência rápida, o humor certeiro, a capacidade de desmontar arrogâncias com uma história bem contada. E, acima de tudo, um orgulho profundo da cultura brasileira.
Se tu nunca viu um vídeo dele no YouTube, vá agora. Pare de ler e volte só depois. Porque ese mergulho me revelou um universo fascinante. E ainda assim, a palavra fascinante não carrega o peso que eu quero dar. Acho que precisaria inventar outra palavra.
Veja, um menino nascido dentro de um palácio de governo. Um pai assassinado em meio às convulsões políticas do Brasil de 1930. Uma infância moldada pelas histórias do sertão. Um estudante que se transformaria em dramaturgo, professor, pensador da cultura brasileira e criador de um dos movimentos artísticos mais originais do país.
Mas essa história merece ser contada com calma. Porque a vida de Ariano Suassuna possui a mesma riqueza das narrativas que ele ajudou a preservar.
A história começa no dia 16 de junho de 1927. Naquele dia nasceu, na então capital da Paraíba, chamada Paraíba do Norte e hoje conhecida como João Pessoa, um menino chamado Ariano Vilar Suassuna.
O nascimento aconteceu dentro do próprio Palácio do Governo. Seu pai, João Suassuna, ocupava o cargo de presidente do estado da Paraíba, função equivalente ao que hoje chamamos de governador. Sua mãe, Rita de Cássia Dantas Vilar, conduzia a vida doméstica de uma família grande. Ariano cresceu entre oito irmãos, formando uma casa cheia de vozes, disputas infantis e afetos.
Quando João Suassuna deixou o governo, a família mudou-se para uma fazenda em Sousa, no interior paraibano. Ali o menino encontrou o ambiente que moldaria profundamente sua imaginação. O sertão oferecia histórias, cantorias, personagens e situações que pareciam nascer prontas para virar literatura.
Cantadores improvisavam versos em rodas de viola. Bonecos de mamulengo representavam dramas e comédias diante do povo. Narrativas atravessavam gerações pela oralidade. Esse mundo popular começou a habitar a memória do menino.
Em 9 de outubro de 1930, a vida de Ariano recebeu um golpe que marcaria toda a sua trajetória. Seu pai foi assassinado no Rio de Janeiro com um tiro pelas costas. O crime surgiu no meio das tensões políticas que agitavam o país naquele momento.
Meses antes, outro personagem central da política paraibana, João Pessoa, também havia sido assassinado. O país inteiro atravessava uma turbulência que desembocaria na Revolução de 1930.
A morte de João Suassuna atravessou a infância do filho como uma ferida profunda.
Décadas depois, ao ocupar a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, Ariano recordou esse episódio com uma declaração sincera. Ele afirmou que continuava sendo aquele menino que perdeu o pai assassinado e passou a vida inteira tentando protestar contra aquela morte através daquilo que escrevia. Chamou sua obra de uma compensação precária oferecida à memória do pai.
Essa lembrança revela muito da força moral de sua escrita. A inteligência irônica de suas histórias convive com uma consciência profunda de justiça.
Depois da tragédia, a família mudou-se para Taperoá. Ali o menino iniciou sua vida escolar e aprofundou seu contato com a cultura popular nordestina. As cantorias de viola, os mamulengos, as histórias de feira e as narrativas populares se transformaram em matéria viva dentro de sua imaginação.
Na adolescência, Ariano mudou-se para Recife. Concluiu o ensino médio em 1945. No mesmo ano publicou seu primeiro poema, chamado “Noturno”, no Jornal do Commercio. Vale, aqui, a indicação.
A escrita já havia encontrado seu caminho e ainda bem. Para o nosso bem. 
Em 1946 ingressou na Faculdade de Direito do Recife. A universidade reunia jovens interessados em literatura, teatro e pensamento cultural. Ali surgiu o Teatro do Estudante de Pernambuco, iniciativa da qual Suassuna participou como fundador.
Suas primeiras peças ganharam palco e atenção da crítica.
Em 1950 concluiu o curso de Ciências Jurídicas e Sociais. Durante alguns anos conciliou advocacia e criação literária. A literatura, porém, ocupava um espaço cada vez maior em sua vida.
Em 19 de janeiro de 1957, Ariano casou-se com Zélia de Lima. O casamento inaugurou uma longa história familiar marcada por estabilidade e afeto. O casal teria seis filhos. A vida doméstica convivia com o ambiente intelectual e artístico que cercava o escritor. Entre aulas, peças teatrais e livros, existia também uma casa cheia, onde o cotidiano familiar possuía tanta importância quanto o trabalho criativo.
Enquanto sua carreira avançava, sua trajetória espiritual também encontrava um caminho próprio. Ariano nasceu em um ambiente religioso ligado ao calvinismo, tradição protestante surgida no século XVI a partir das ideias do reformador João Calvino. O calvinismo valoriza disciplina moral, rigor intelectual e uma relação direta entre o indivíduo e as Escrituras. Durante a juventude, Ariano atravessou um período de afastamento religioso e reflexão pessoal. Mais tarde encontrou no catolicismo romano uma expressão espiritual que dialogava profundamente com sua visão cultural e estética.
Essa dimensão religiosa atravessaria sua obra. O universo simbólico do catolicismo popular brasileiro aparece em várias de suas peças. Pecado, redenção, misericórdia e julgamento convivem com humor, ironia e humanidade.
Em 1955 ele escreveu a peça que se tornaria uma das obras mais conhecidas do teatro brasileiro: Auto da Compadecida.
A peça reúne comédia, drama e reflexão moral dentro de uma linguagem profundamente brasileira. Nela aparece novamente o personagem que já caminhava havia muito tempo pelo imaginário popular, o João Grilo.
Ao lado de Chicó, o contador de histórias improváveis que vive repetindo “não sei, só sei que foi assim”, João Grilo atravessa uma série de confusões que revelam injustiças sociais, ambições humanas e a eterna luta entre esperteza e poder.
O público reconheceu imediatamente aquele universo.
Em 1962, a peça foi considerada o texto mais popular do teatro moderno brasileiro.
Enquanto a carreira literária ganhava projeção, Ariano aprofundava sua formação intelectual. Em 1960 concluiu o curso de filosofia na Universidade Católica de Pernambuco. Mais tarde tornou-se professor de estética na Universidade Federal de Pernambuco.
Suas aulas ficaram famosas. Salas lotadas ouviam suas reflexões sobre cultura brasileira, literatura e história. O professor aparecia muitas vezes vestindo terno preto e camisa vermelha, cores do seu time do coração, o Sport Club do Recife. Ele chamava aquele traje de Sport fino. Ou gostava de pensar assim 
Em 1976 defendeu sua tese de livre-docência em História da Cultura Brasileira.
Nesse mesmo período, sua visão estética encontrou uma forma ainda mais clara. Em 1970 nasceu o Movimento Armorial.
A proposta do movimento buscava uma arte erudita brasileira construída a partir das raízes populares do Nordeste. Literatura, música, teatro e artes visuais dialogavam com a tradição do cordel, a xilogravura, a cantoria de viola e os espetáculos populares.
Suassuna também produzia ilustrações. Seus desenhos apresentam linhas fortes, figuras simbólicas, cavaleiros imaginários, animais fantásticos e brasões inventados. O traço lembra as xilogravuras do cordel nordestino. Ao mesmo tempo, evoca formas visuais muito antigas da América, imagens que parecem dialogar com tradições gráficas indígenas e com a estética profunda do continente.
Esse encontro entre heranças ibéricas, cultura popular nordestina e imaginação brasileira formava uma estética única.
Ao longo da vida, Suassuna também participou da vida pública. Atuou no Conselho Federal de Cultura. Serviu como secretário de Educação e Cultura do Recife. Ocupou o cargo de secretário de Cultura de Pernambuco nos governos de Miguel Arraes e Eduardo Campos.
Durante toda a vida escreveu romances, ensaios e mais de quinze peças teatrais.
Em 23 de julho de 2014, no Recife, Ariano Suassuna morreu aos 87 anos após uma parada cardíaca ocorrida poucos dias depois de um acidente vascular cerebral.
A trajetória de um homem chegou ao fim.
A obra permanece viva.
(E eu tenho certeza que a familia tem mais coisas dele para publicar e aguardo ansioso. )
Personagens como João Grilo continuam caminhando pela imaginação brasileira. Histórias atravessam gerações carregando humor, inteligência e aquela astúcia sertaneja que encontra solução onde ninguém mais encontra. Eu reconheço muito disso em nós.
Talvez por isso aquela frase faça tanto sentido.
Morreu o grilo mais inteligente do mundo.
Inquieto, rapido, intermitente, dono de um canto que atravessa a vida inteira.
Enquanto houver alguém contando uma boa história neste país, o canto daquele grilo continua ecoando.
Contar historias é bom demais. Valeu Suassuna
Pra sempre!
Fonte: Perfil de Fagner Oliveira - Facebook
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