Crônica da Atualidade - Por Fagner Oliveira
Antes de escrever sobre alguém que já partiu, eu peço permissão. É um gesto íntimo, quase ritual. Permissão para tocar uma vida que já se encerrou, para atravessar memórias com cuidado, para escolher palavras guiadas por ética, afeto e respeito. Quando decidi escrever sobre Flávio Migliaccio, esse pedido veio carregado de um sentimento coletivo, porque ele não pertence apenas à história do teatro, do cinema ou da televisão. Ele pertence à memória afetiva de um país inteiro. Isso ninguém pode discordar.
Flávio atravessou a minha infância e a de muitos brasileiros como uma presença familiar. Ele surgia em cena como aquele homem mais velho que acolhe, aconselha e observa com atenção. Havia algo de seguro em sua presença, um tipo de carinho que se insinuava mesmo nos personagens cômicos. Ele fazia rir sem agressividade, ensinava sem impor, existia em cena como quem oferece abrigo. Em Tapas & Beijos, como seu Chalita, o ultimo trabalho dele que me vem à cabeça ele sustentava o humor com humanidade, transformando o riso em gesto de convivência.
Assistir a Flávio era, muitas vezes, sentir-se em casa.
Essa forma de estar no mundo começou cedo. Nascido no bairro do Brás, em São Paulo, em 26 de agosto de 1934, Flávio cresceu em uma casa cheia, ruidosa, viva. Filho de um barbeiro e de uma dona de casa, viveu cercado por dezesseis irmãos. A vida ali se organizava em torno do esforço cotidiano e da imaginação como ferramenta de sobrevivência. O pai trabalhava duro para sustentar a família e ainda encontrava espaço para a música. A mãe, apaixonada pelas artes, transformava a janela em palco, estendendo um lençol branco onde as sombras das crianças viravam espetáculo para os vizinhos, embaladas pelo som do bandolim. Nesse teatro improvisado, Flávio descobriu a potência da presença, da escuta e da representação como gesto humano.
Há um detalhe na juventude dele que me chamou a atenção, e eu faço questão de contar isso a você, leitor, mesmo correndo o risco de parecer insistente ou evasivo. Durante a adolescência, Flávio chegou a cogitar a vida religiosa. Foi enviado para um colégio interno com a expectativa de se tornar padre, quase como uma tentativa da família de conter aquela inquietação criativa que já transbordava. Ali, ele viveu uma experiência profundamente violenta. Sentiu-se ultrajado, invadido, traído por uma autoridade que deveria representar cuidado e ética. O episódio marcou uma ruptura definitiva. Ao sair daquele colégio, Flávio parece ter entendido muito cedo algo que o acompanharia por toda a vida: o poder que se exerce sem humanidade deixa cicatrizes profundas e exige posicionamento.
O teatro se apresentou como caminho e método. No Teatro de Arena, Flávio viveu o centro nervoso da resistência cultural brasileira. Ao lado de artistas que acreditavam na arte como gesto político, aprendeu que o palco também funciona como trincheira. O Arena colocou o brasileiro comum no centro da cena e fez disso um gesto histórico. Peças como Arena Conta Zumbi e Arena Conta Tiradentes falavam do passado para iluminar o presente. A repressão rondava ensaios, teatros e amizades. Criar exigia coragem diária. Esse aprendizado foi corporal e ético: a arte carregava responsabilidade pública.
Essa experiência moldou profundamente sua visão de mundo. Flávio desenvolveu uma estratégia refinada para tempos duros: a ingenuidade como linguagem. Seus personagens pareciam simples na superfície, quase despretensiosos, mas carregavam camadas densas sobre desigualdade, liberdade e dignidade. O humor funcionava como via de passagem para ideias profundas. Era a astúcia de quem entende que, em certos contextos, a leveza protege a mensagem. No cinema, essa inteligência ganhou contorno autoral. Em As Aventuras do Tio Manéco, personagem que funcionava como alter ego, Flávio criou um homem comum tentando compreender o Brasil ao redor, observando contradições, afetos e injustiças com espanto genuíno.
Nesse percurso, a família seguiu como eixo silencioso. Ele levou para o teatro a irmã Dirce Migliaccio, que também se tornaria atriz e entraria para a história da televisão como a primeira Emília do Sítio do Picapau Amarelo. Sempre achei simbólico que, em uma mesma família, surgissem dois artistas tão ligados ao imaginário popular infantil e adulto. Flávio e Dirce ajudaram a formar gerações inteiras, cada um à sua maneira, oferecendo fantasia, afeto e identidade cultural. A morte dela, em 2009, foi mais uma camada de silêncio que se acumulou em sua vida.
A televisão ampliou o alcance sem alterar o núcleo ético. A partir de 1972, vieram novelas, séries e personagens que entraram no imaginário coletivo. Ao lado de Paulo José, construiu parcerias memoráveis. Ainda assim, Flávio manteve uma postura rara. Ele se via como um operário da arte, um artesão que trabalha a matéria humana com rigor e cuidado. A celebridade jamais ocupou o centro de sua identidade. O sucesso soava como ruído. A verdade se organizava no cotidiano simples, no gesto bem feito, na atenção ao outro.
Esse modo de estar no mundo se refletia na vida privada. O sítio em Rio Bonito oferecia terra, silêncio e tempo. Ali, Flávio digeria a realidade urbana e organizava pensamentos em outro ritmo. Ele acreditava no tempo longo, na maturação das pessoas e das ideias. Nos bastidores, mantinha pontualidade rigorosa, atenção constante, respeito como prática diária. Colegas lembram que ele chegava cedo e saía por último, transformando o compromisso em forma concreta de ética. Havia ali um homem de hábitos simples, timidez quase anacrônica, firmeza de princípios.
Com o passar dos anos, cresceu um descompasso entre seus valores e a velocidade do mundo. Flávio falava sobre envelhecer com lucidez. Observava uma sociedade cada vez mais acelerada, menos paciente, mais descartável. Sentia-se, muitas vezes, estrangeiro no próprio tempo. A cultura do descarte, o endurecimento das relações humanas e o afastamento da natureza feriam sua sensibilidade. Ainda assim, ele permanecia inteiro.
Na última entrevista, concedida ao programa Tarja Preta, guiado por Selton Mello, Flávio surgia vistoso, lúcido, atento às próprias palavras. Havia clareza no pensamento e domínio absoluto da linguagem. Em certo momento, avisou com serenidade desarmante que aquela seria sua última entrevista. Disse que era ali, naquele dia. Falou sobre o tempo e sobre a memória, não como perda, mas como escolha. Explicou que decorava textos antigos, que lembrava de peças feitas décadas antes, e que sua relação com a memória passava por descartar o que já não servia. Insistiu que não se tratava de confusão ou fragilidade, mas de decisão consciente. Ele escolhia não carregar excessos. Escolhia não acumular ruídos. Ali estava um homem senhor do próprio percurso, lúcido, firme, cansado e inteiro ao mesmo tempo. O desgaste que atravessava sua fala vinha de uma vida longa, marcada por lutas culturais e por expectativas depositadas em um país mais humano. Nada ali soava confuso. Tudo soava decidido.
Em 4 de maio de 2020, Flávio Migliaccio morreu em seu sítio, em Rio Bonito. Junto ao corpo, havia um bilhete. Ele dizia, na íntegra:
“Me desculpe, mas não deu mais.
A velhice neste país é o caos como tudo aqui.
A humanidade não deu certo.
Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora
num país como este e com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das Crianças do Hoje"
Como escritor e pesquisador, leio esse bilhete com sobriedade. Vejo ali o peso de uma vida inteira atravessando ditadura, censura, exílio de amigos, fechamento de palcos e ainda assim insistindo na arte como ponte. As palavras carregam frustração histórica, desalinhamento com o tempo presente e uma dor acumulada que encontrou ali sua forma final de expressão. A explicação se encerra junto com a vida. Para quem fica, resta o luto, a escuta e a responsabilidade de refletir.
A depressão se apresenta como sombra de muitas formas. Ela atravessa trajetórias luminosas, pessoas queridas, histórias admiráveis. Ela se manifesta como cansaço, isolamento, desencanto, lucidez intensa. Ajudar alguém exige atenção treinada, empatia ativa e presença cotidiana. Nem sempre os sinais se anunciam com clareza. A vida pede cuidado coletivo.
Cada pessoa representa um acontecimento raro. Todo ser humano carrega valor e merece tempo, escuta e chance de reencontro consigo mesmo. Quando a dor pesa, existe ajuda. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo número 188, vinte e quatro horas por dia, oferecendo escuta e acolhimento. Falar sustenta. Ouvir transforma.
Flávio Migliaccio deixou personagens, histórias e afetos espalhados pela cultura brasileira. Sua obra segue viva. Que a memória dele nos ensine a olhar com mais atenção para quem caminha ao nosso lado. Que a arte siga como ponte.
Que o cuidado siga como escolha.
De qualquer forma, Obrigado, Flávio Migliaccio 🖤
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