Artigo: NÃO MATEM O AUTOR! - Por Dionísio Neto
O escritor e poeta paraense, Daniel da Rocha Leite, publicou este artigo em sua página do Facebook, via Ernani Terra e pelo tema ser interessante, recorto aqui no Blog, com os devidos créditos!
Transcrevo artigo de opinião de autoria de Dionisio Neto* publicado na seção Tendências e Debates da Folha de hoje, p. A4.
NÃO MATEM O AUTOR!
Quando a IA tem capacidade de gerar o original e não apenas copiá-lo, noção de autoria corre o risco de desaparecer
Quando a inteligência artificial escreve um soneto ou um romance, quem é o autor? A pergunta, que parece saída do 1984, é hoje urgente e prática. Ela nos obriga a revisitar um texto quase centenário, "A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica", de Walter Benjamin. O filósofo alemão, ao analisar o impacto da fotografia e do cinema, diagnosticou a "perda da aura" da obra de arte, deslocada de seu "aqui e agora" ritualístico pela cópia infinita.
O que ele não podia prever é que, um século depois, a reprodutibilidade técnica alcançaria seu ápice supremo: a capacidade de gerar o original, e não apenas copiá-lo. Nesse novo cenário, é a própria noção de autoria que corre o risco de desaparecer.
Se a fotografia libertou a imagem do culto à tradição, a IA parece libertar a criação da biografia. O algoritmo é um médium sem história, um oráculo que cria mais do mesmo. Ele oferece o produto final sem o percurso existencial, as dúvidas, os rascunhos rasurados, o acaso, as contradições e a necessidade que constituem a gênese de uma obra humana.
O perigo não é que máquinas escrevam, mas que, nesse dilúvio textual gerado, a voz do autor que tem algo a dizer –fruto de um corpo, uma alma, um tempo e um lugar, uma história única de vida, uma impressão digital– seja afogada na obviedade déjà vu dos famigerados lugares comuns dos algoritmos. Nunca li tanto "sussurra", "presença", "ecoa" e tantas expressões confortáveis ao bom gosto mediano e medíocre.
Talvez a saída não seja romantizar um passado pré-IA, mas redefinir radicalmente a autoria para esse novo contexto. Ela pode residir menos no ato de ditar palavras e mais na curadoria, na intenção, na direção dada ao algoritmo. O autor será aquele que formula o problema estético, que seleciona, edita e confere sentido ao material gerado. Aquele que duvida e assume a responsabilidade ética e intelectual pelo resultado final.
Precisamos de marcas de autenticidade, de contratos que distingam contribuições humanas e algorítmicas, de uma educação do leitor para discernir vozes. A obra de arte, na era da reprodutibilidade algorítmica, pode ser gerada infinitamente. Mas a autoria, entendida como lugar da consciência, da escolha e da responsabilidade, permanece o último refúgio do humano na criação.
O desafio é garantir que essa assinatura não sucumba em uma duvidosa lógica de mercado, mas que tenha o selo inegociável de que aquela obra nasceu de um mundo vivido, e não apenas processado. Benjamin escreveu sobre o que se perde com a reprodução.
Cabe a nós decidir o que queremos preservar na geração. O autor e sua personalidade insubstituível devem estar no topo da lista, ou seremos apenas uma multidão de marionetes sem rosto, uniformizadas, manipuladas pela amorfa artificialidade do Grande Irmão. O autor traz o improvável, a surpresa, o inimaginável. A IA, coitada, é um estagiário esforçado e mimético.
Mais do que nunca precisamos da autenticidade e da originalidade do autor —que mostra ao mundo não o que ele já sabe e nem o que quer, mas provoca, critica, questiona e oferece o que o público jamais imaginaria desejar. Proteger a autoria não é nostalgia, é garantir que ainda haja originais para reproduzir.
* Autor e diretor. Escreveu dezenove peças e os romances 'Perla Stuart – a Ex-Mulher' e 'Perla Stuart – o Ex-Marido' (Ed. Tapioca)
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