Eu sempre acreditei que o humor era uma espécie de armadura. Alguns fazem dela uma espada, outros fazem dela um escudo. Cláudia Jimenez fez dos dois. Eu nunca tive esse talento. Nunca fui o tipo que devolve na lata. Eu sou o rapaz parado no canto da festa com uma cerveja na mão, tentando analisar o ambiente antes de entrar. Nunca fui bom em depreciar pessoas, nunca consegui achar graça nisso. Não sei usar defeitos, os visíveis e os invisíveis, como munição pra arrancar risos. Talvez isso me faça um bunda mole. Talvez faça de mim apenas honesto. E talvez tenha sido exatamente esse meu ponto de encontro com Cláudia. Essa vontade de entender o mecanismo do humor como autodefesa, esse jeito de aliviar o peso das coisas dizendo uma coisa engraçada antes que o mundo se lembre de machucar você.
Eu, criança dos anos 90, ficava acordado até tarde só para ver Sai de Baixo. E antes disso, claro, Dona Cacilda, da Escolinha do Professor Raimundo. “Beijinho, beijinho, pau, pau.” Era o tipo de frase que grudava na cabeça da gente como chiclete barato. Cresci citando esses bordões, repetindo as piadas, sem fazer ideia da complexidade por trás daquela figura que parecia tão invencível na tela. E por isso escrevo: porque o prazer de descobrir quem ela foi se mistura com o prazer de dividir essa descoberta com quem, como eu, aprendeu a amar aquela mulher que fazia o Brasil gargalhar enquanto o coração dela travava batalhas que ninguém podia ver.
Cláudia Maria Patitucci Jimenez nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de novembro de 1958. Filha de um comerciante espanhol e de uma dona de casa brasileira, cresceu numa família numerosa, com três irmãs, entre elas Sandra e Regina. Era uma casa que misturava sotaques, temperamentos e ruídos típicos de quem tenta se virar entre contas, afetos e sonhos improváveis. Desde criança ela era engraçada, mas não no sentido de palhaça. Era engraçada porque precisava ser. Usava o humor para se esconder da insegurança que sentia com o próprio corpo. Esse ponto me atinge como um soco lento: o humor como trincheira. Talvez por isso ela tenha sobrevivido tanto tempo num mundo que adora colocar nomes, rótulos e limites nas pessoas que ousam existir fora do padrão ou do status quo.
Ela estudou em colégios tradicionais do Rio e, adolescente, começou a flertar com o teatro como quem encontra um espelho finalmente honesto. Foi no final dos anos 70 que ela entrou oficialmente no mundo das artes, estudando no Teatro O Tablado, o templo criado por Maria Clara Machado, essa gigante do teatro infantil brasileiro, autora de Pluft, o Fantasminha, A Bruxinha que Era Boa, O Cavalinho Azul, O Rapto das Cebolinhas, A Menina e o Vento. Maria Clara era filha de Aníbal Machado, cresceu cercada de Drummond, Vinicius, gente que moldou a inteligência e a sensibilidade do país. Cláudia bebeu dessa fonte, dessa elegância intelectual, dessa criatividade que não subestima nem criança, nem adulto, nem ator.
E foi ali, n’O Tablado, que a comédia virou destino.
Em 1978, ela estreou profissionalmente na Ópera do Malandro, de Chico Buarque. Mimi Bibelô. Uma prostituta no palco, uma metáfora na plateia. A peça ainda enfrentava as sombras da ditadura militar, e participar de uma obra de Chico naquele período era quase uma declaração de liberdade. Foi ali que Maurício Sherman a notou. Foi dali que sua vida deu o salto para a televisão.
Em 1979, ela estreou na TV Globo em Malu Mulher, fazendo uma participação especial. Nos anos 1980 participou de Viva o Gordo, de Jô Soares, e de Os Trapalhões, fazendo aparições cômicas em esquetes variadas. Sua performance chamou a atenção de Chico Anysio, que a convidou para trabalhar em seus programas humorísticos. No Chico Anysio Show viveu personagens como a enfermeira Alda e a ninfomaníaca Pureza. Na Escolinha do Professor Raimundo interpretou a inesquecível Dona Cacilda, aluna namoradeira com bordões marcantes. Essas personagens ajudaram a consolidar sua presença na TV e a estabelecer o humor irreverente pelo qual ficou conhecida.
E então, quando veio Sai de Baixo, em 1996, ela se transformou em estrela nacional. Edileuza. A química com Miguel Falabella, Marisa Orth, Aracy Balabanian, Tom Cavalcante, Luiz Gustavo. O caos, o improviso, o teatro ao vivo toda semana. Ela brilhou como poucos brilham. E, ironicamente, foi também ali que o corpo voltou a ser arma contra ela. Piadas sobre seu peso. Roteiros que ela considerava óbvios demais, ofensivos demais. Ela odiava quando chamavam o burro de burro e a gorda de gorda, dizia que isso não tinha inteligência. E estava certa.
A relação azedou. Ela reclamou em reunião. Ela foi demitida por Daniel Filho. No primeiro episódio sem ela, disseram que Edileuza ganhou na loteria e sumiu. E ela, do lado de fora, declarou que o programa tinha sido um rio poluído na vida dela. Décadas depois, admitiu que foi imatura. Que o ego tinha falado mais alto. Que teria ficado se tivesse a cabeça que desenvolveu mais tarde. Não voltou. Nem para o filme.
Aqui, de novo, a dualidade que me atravessa enquanto escrevo: a força para defender o próprio valor e a melancolia de reconhecer, anos depois, que poderia ter sido diferente. É fascinante quando a gente percebe que até os gigantes tropeçam e assumem.
Mas a grande batalha dela não foi no Sai de Baixo. Foi no próprio peito.
Aos 28 anos, em 1986, Cláudia foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin. Radioterapia pesada no tórax. Ela venceu o câncer, mas perdeu parte do futuro naquele tratamento. As radiações destruíram tecidos do coração. A partir dali, o órgão que sustentava aquele sorriso enorme começou a falhar como motor quebrado em estrada de terra.
1999: cinco pontes de safena.
2012: troca da válvula aórtica por uma de tecido suíno.
2014: marca-passo.
Ela dizia que era feita de peças e ria. Ria porque dizia que agora tinha um coração de porco. Brincava que sentia desejos por lama e que, quando passava em frente a uma churrascaria, batia um aperto de solidariedade pelos companheiros.
E mesmo assim, viveu intensamente seus amores.
Ela não teve filhos, mas viveu um grande casamento com Stella Torreão, de 1998 a 2008. E mesmo quando o amor erótico terminou, como ela mesma dizia, as duas continuaram juntas como sócias, amigas, companheiras de existência. Stella era sua casa, sua rede de apoio, sua fortaleza nos dias de cirurgia. A ela, Cláudia deixou tudo: imóveis, joias, ações, uma herança que não foi contestada pelas irmãs Sandra e Regina.
Ela teve romances com o ator Rodrigo Phavanello, que a amou apesar do preconceito da diferença de idade. Teve um envolvimento com Leila Pinheiro. Viveu relações com Ricardo Nunes, Rodrigo Bonadio e até com o ator americano Todd Rotondi. Definia sua orientação sem rodeios, dizia que o que importava era o encontro de almas. Esse tipo de liberdade, especialmente para uma mulher que vivia na vitrine da TV brasileira, exige coragem. E também revela uma insegurança profunda. A liberdade de ser quem se é e o medo do julgamento. E aqui me dói escrever isso, porque eu, analisado diariamente, sei bem que um comentário torto derruba o dia inteiro. A maioria aplaude. Mas um escorrega. E pronto, a gente desaba.
Ela tinha amigos como quem coleciona faróis. Miguel Falabella, seu irmão de vida, 40 anos de história. Giovanna Antonelli, de quem foi madrinha. Carolina Dieckmann, que frequentava seus aniversários no Copacabana Palace. Zélia Duncan, que chorou publicamente sua ausência. Tom Cavalcante, parceiro de cena e afeto. Betty Lago, uma de suas maiores companheiras, cuja morte a devastou. E Tata Werneck, que dizia que Cláudia era sua maior referência de comédia.
Ela viveu os bastidores da TV durante a ditadura, quando piadas políticas eram feitas nas entrelinhas. Viveu a redemocratização. Viveu o auge da televisão ao vivo. Viveu o preconceito contra humoristas dentro do próprio meio. Viveu tudo isso com o humor como trincheira e com o coração como relógio que teimava em caminhar para trás.
Em seus últimos anos, após o marca-passo, ela se recolheu. Morava no Rio, cuidada pelas irmãs e por Stella. Evitou o mundo durante a pandemia por ser grupo de altíssimo risco. Trabalhou pouco, sua última novela foi Haja Coração em 2016. Gravou Infratores para o Fantástico em 2018, sua última aparição inédita.
Em agosto de 2022, o coração finalmente disse basta. Foi internada no Samaritano, em Botafogo. Morreu aos 63 anos, de insuficiência cardíaca. Deixou o país mais triste e amigos com um silêncio que não fazia parte do repertório dela.
O velório no Memorial do Carmo foi uma espécie de coro final, com Miguel Falabella dizendo que a vida, sem Cláudia, tinha menos graça.
E aqui, no ponto onde tudo retorna ao começo, o círculo se fecha. A imagem que fica é a de uma mulher que usou o humor como armadura, que riu para sobreviver, que amou com liberdade, que lutou contra um coração cansado desde os 28 anos, que enfrentou preconceitos, que brilhou no palco, que deixou cicatrizes e risos para trás. E também a imagem de um garoto nos anos 90, deitado no tapete da sala, esperando a vinheta de Sai de Baixo, repetindo o bordão que atravessou gerações, sem saber que por trás de cada gargalhada havia tanto peso, tanta dor, tanta coragem.
Hoje, entendendo quem ela foi, percebo que a nostalgia não é só a lembrança do que assistimos. É a lembrança do que éramos enquanto assistíamos.
E, de algum modo, continuar falando dela, longa, inteira, profunda, é meu jeito de agradecer.
Fonte: Facebook de Fagner Oliveira, conhecido nas redes sociais como "O Anacronista", é um criador de conteúdo, roteirista e produtor audiovisual que se dedica a compartilhar histórias e curiosidades, principalmente sobre temas históricos.
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