Em Belém, o Bairro do Guamá recebe visagens e assombrações no Cortejo Visagento

 A edição chama atenção para as queimadas na Amazônia e neste ano homenageou uma das lendas mais importantes do Pará: o curupira


Dia das Bruxas em Belém foi marcado pelos arrepios pura diversão da quarta edição do Cortejo Visagento que ocorreu na noite desta segunda-feira (31). A concentração foi às 18h em frente ao Cemitério Santa Izabel, no bairro do Guamá, e seguiu em direção à praça Benedito Monteiro, passando pelas ruas José Bonifácio, Silva Castro, Liberato de Castro e Barão de Igarapé Miri. E para deixar o clima mais sombrio, o evento teve apresentações nas ruas e performances do grupo Teia, Shaira Mana Josy e a Matinta Maria Borges.

Trazendo a força do folclore para as ruas do Guamá, o projeto foi criado pelo Espaço Cultural Nossa Biblioteca e recebe há quatro anos a colaboração de professores, artistas e moradores, que buscam valorizar a cultura popular e levar voluntários do espaço para ministrar aulas dentro do Cemitério Santa Izabel. A abertura do evento foi aberto pelo “Cortejo das Almas” compostos por senhoras vestidas de branco e segurando velas.

Victor Ramos, que estava vestido de Boto-cor-de-rosa e é um dos organizadores do Cortejo, afirmou que o evento veio para ressignificar o Hallowen e dar maior visibilidade às "visagens e assombrações" típicas da região. “Também queremos desmistificar o cemitério, porque as pessoas têm medo, mas é um lugar de descanso que pode ter várias histórias do imaginário e contar a história do próprio bairro”, afirmou.

Acompanha detalhes do Cortejo Visagento:














Durante o percurso, foram feitas várias paradas em cada rua para contação de histórias e apresentações culturais dos participantes e parceiros do projeto. Um dos pontos principais e mais aguardados foi a passagem em frente às ruínas do antigo leprosário do Guamá, desativado há quase 90 anos e, que até nos dias de hoje tem histórias assombrosas.  

Para um dos fundadores mais antigos do Cortejo Visagento, Raimundo de Oliveira, a grande intenção da manifestação cultural e artística é descolonizar a data e trazer o mais perto possível da realidade dos paraenses. “O Halloween pode vir, mas quem manda é a Matinta Perera, o Saci Pererê. Nós não queremos ser desrespeitados, e sim, valorizar o que é nosso. Fazer com que o morador olhe de uma forma diferente para o seu bairro”, enfatizou sobre a discussão que o evento traz.    

Nesta edição, como forma de chamar atenção para as queimadas na Amazônia, o cortejo homenageia um dos  mais importantes contos e lendas do Pará e do Brasil: o Curupira, o guardião da floresta. Mas também estiveram presentes ícones das assombrações e personagens populares das lendas já conhecidas, como a Mulher do Táxi, o Padre Sem Cabeça e o Lobisomem, e outros. Todos eles foram frutos da criatividade dos participantes que abusaram das maquiagens artísticas e entraram no clima proposto pelo cortejo.

A professora de artes Tereza Lourinho, de 51 anos, participou pela primeira vez da manifestação cultural e decidiu fantasiar-se de Matinta Perera, personagem que já a acompanha há alguns anos.  O apego pela lenda popular veio por meio do avô, que costumava contar histórias envolvendo-a, sobre uma velha senhora que aparecia para tomar café com ele.

“Eu me identifico muito com a Matinta, porque tenho a voz alta e estridente. Gosto da maneira como contam a história dela e na minha infância, eu escutei muito sobre isso no município de Mosqueiro com o meu avô. O mais engraçado é que todas as vezes que ele contava uma história no outro dia, aparecia uma senhora para tomar café com a gente”, contou a educadora.

Adilelson Nascimento dos Santos, de 12 anos, participou do Cortejo Visagento fantasiado de “Padre Sem Cabeça”. Reza a lenda que um vigário seria avistado andando pelas ruas de Belém a noite e quando o morador chega mais perto para cumprimentá-lo, percebe-se que o sacerdote não possui a parte superior do corpo.  

“Eu achei curiosa essa lenda e quis sair vestido dela, como é a primeira vez que participo minhas expectativas estão  bem altas”, afirmou o garotinho. A ideia veio da irmã Luane Leal, que customizou a vestimenta e acompanhou-o durante o trajeto do evento. Ela afirmou que tirou a inspiração do próprio site da organização. Além dela, mais dois outros membros da família, o sobrinho Leandro, de 8, vestido de Saci, e a irmã Gabriela, de 27, de Matinta, também acompanharam o cortejo. 

Já o professor Júlio Villamar, de 42 anos, optou por usar uma fantasia universal e americanizada: a de espantalho. Todos os anos ele costuma marcar presença no cortejo, e em 2022, a roupa para participar foi decidida de última hora. Bastou pegar uma camisa de festa junina, colocar uma calça jeans e máscara. 

“O que mais me atrai é participar justamente de um evento onde ocorre dentro de um cemitério, que traz uma coisa lúdica, uma outra proposta. Participo também porque gosto do tema e da época, porque podemos mesclar com um pouco de personagens de fora, mas também com os nossos, como por exemplo a  Mula Sem Cabeça”, disse Júlio.

Desde o início do mês de outubro o Espaço Social Nossa Biblioteca (ESBN) promoveu diversas oficinas para a criação de fantasias e adereços, expressão corporal e escrita crítica. “É muita alegria estar nas ruas novamente, podendo comemorar em segurança e, agora, com saúde, sem tanto medo da pandemia”, afirmou Minéia Silva, presidente do espaço social.



Fonte: O Liberal 

Texto: Amanda Martins 


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