Carta aberta à presidente Dilma - Por Eduardo Machado


Ao contrário do Eduardo, não vou votar em Dilma e alguns pontos que ele se refere neste artigo, sobre as falcatruas do PT, ferem meus princípios, pois não aceito que a corrupção enlameiem ainda mais o chão do meu Brasil. No mais, o ente político, seja ele qual for, sempre tem sua carga de interesses pessoais, assim por diante.  (PV) Leiam o texto.  



Belo Horizonte, 20 de outubro de 2014,

            Prezada presidente,

No dia 6 de outubro de 2006, usei esse mesmo espaço para escrever uma carta ao presidente Lula que era, então, candidato à reeleição. Agora, oito anos depois, faço o mesmo em relação à senhora.
Já adianto; no próximo domingo a senhora receberá o meu voto. Junto dele, o meu desencanto.
Tenho 61 anos. Sou de uma geração que foi marcada por um corte abrupto em sua cidadania. Eu tinha onze anos quando aconteceu o golpe de 64. Entrei na adolescência sob o signo da ditadura. Cheguei à juventude e cursei a faculdade no período mais duro do regime militar.
            Adulto, professor, participei com entusiasmo do primeiro movimento cívico/popular da minha geração: a campanha das Diretas Já, um inesquecível espetáculo de democracia direta.
Mas, naquela mistura de arremedo de democracia e ditadura em agonia em que vivíamos, perdemos as Diretas, mas ganhamos um rumo. O PT, ao qual não me filiei, mas em quem sempre votei, por acreditar que era o partido que melhor encarnava os sonhos e a luta da minha geração.
            Quando o Lula chegou lá, em 2003, outro momento inesquecível, foi como se todos nós, do movimento estudantil e sindical, operários, intelectuais e artistas, gente do povo, gente como a gente, tivéssemos chegado.
Começou um tempo de inegáveis avanços e conquistas, mas, junto, denúncias de práticas que o PT sempre condenou.
O problema, presidente, é que onde está o poder está o dinheiro, o que torna qualquer governo atraente àqueles que têm como plano e projeto cuidar dos próprios bolsos. O PMDB e o PFL (hoje, DEM) que o digam.
Houve desmentidos, confirmações e, por fim, vergonha e decepção. Os companheiros que chegaram com Lula ao poder, caindo, um a um.
Olha, presidente, quem lhe fala não é um alienado ou um analfabeto político. Sei dos ataques e agressões que expressam o enorme preconceito ainda presente em nossa sociedade. Muitos dos que exibem o adesivo “Fora PT” nos seus carros de luxo, pertencem àquela parcela social que reclama da dificuldade em encontrar empregadas domésticas e acha insuportável conviver com a classe C nos saguões dos aeroportos brasileiros.
Sei, e como sei, do jogo que se trava também por trás da cena. Sei dos rabos presos com o Mercado, que financia a grande mídia, que não tem o menor pudor em manipular, mentir e se vender a quem pagar mais, em especial aqui, na minha Minas Gerais, o que me faz ter vergonha de grande parte da imprensa mineira.
Mas tenho vergonha, também, de ver as bandeiras que levantamos nos duros anos de chumbo, num tempo de luta no qual a senhora foi protagonista, vítima e sobrevivente, serem enlameadas, por exemplo, pelo petróleo dos múltiplos escândalos da Petrobrás.
Diante disso, muitos amigos a quem respeito me perguntam: então, Eduardo, porque não mudar com o Aécio?
Porque, infelizmente, na minha avaliação, Aécio e o PSDB não significam mudança, mas retrocesso. A senhora tem razão quando diz que a receita deles já é nossa velha conhecida, em especial na economia. O PT, com todos os problemas e desvios que bem conhecemos, tirou do mapa da fome e colocou no mapa da cidadania um enorme contingente de brasileiros que, antes, eram ignorados. E, no quesito corrupção, a grande bandeira do PSDB, eles não trarão nenhuma mudança, apenas um revezamento.
Anular o voto ou votar em branco não são opções para quem lutou e votou, pra presidente, pela primeira vez, aos 36 anos.
A senhora vai levar o meu voto e, com ele, um vislumbre de esperança. Afinal sou cristão, ou tento ser, e uma das atitudes que me move é justamente esperar, mesmo contra toda a esperança.
A senhora, creio, é uma mulher honrada. Pessoalmente não se envolveu com os escândalos que explodem na mídia. Não sou ingênuo pra acreditar que não sabia de nada. Sabia, como o Lula sabia, mas um dos preços que muita gente aceita pagar para manter o poder é, por vezes, fechar os olhos, calar a boca, dar largas à consciência.
No início do seu mandato a senhora até tentou enfrentar, lembra? Demitiu ministros em série, acusados de envolvimento em malfeitos. Eram imediatamente substituídos por clones, fieis aos interesses dos partidos da base aliada. Na sequência, acomodou-se, ajustou-se, sei lá, engoliu os sapos imensos que coaxaram por todo o país, desde então.
Agora, vem aí uma possível segunda chance. A credibilidade dos institutos de pesquisa está mais baixa que aquela que se dá às promessas eleitorais. Falam em empate técnico. Há uma imensa interrogação no ar e nas urnas.
Nos próximos dias, o bicho vai pegar. Desesperados dos dois lados vão tentar de tudo, e bota tudo nisso, para vencer. No dia do segundo turno da eleição de 1989, entre Lula e Collor (lembra?), a mídia mostrou, o dia inteiro, cenas do sequestro do empresário Abílio Diniz, executivo do grupo Pão de Açúcar. Sequestradores presos na véspera foram apresentados à imprensa vestidos com a camisa do PT.
            O jogo foi, é e será sujo, o que justifica ainda mais o meu desencanto. Não será fácil também na frente política, onde, para mim, a eleição decisiva já aconteceu: a do Congresso. É com eles que a senhora ou o Aécio terão que negociar. Ele será presa fácil dessa turma. Mas a senhora, quem sabe, sendo reeleita com um voto de vantagem (o meu!), possa voltar a ser fiel aos sonhos e ideais daquela moça de 21 anos, presa e torturada por combater a ditadura, e dizer um não a essa banda podre que adora estar no poder para se locupletar.
Diga um FODA-SE ao Temer, ao Sarney, ao Collor, ao Renan Calheiros, à governabilidade e cerque-se de pessoas sérias e competentes. Elas existem, sabe. Faça um segundo mandato pra ficar na História. Afinal, vitoriosa, a senhora não terá mais nada perder, a não ser a própria história.
Conte com meu voto e uma réstia da minha esperança.

Eduardo Machado
20/10/2014