Documentário 'Nazinha, Olhai por Nós' estreia no Cine Ceará com retrato da devoção dos paraenses

 




O documentário “Nazinha, Olhai por Nós”, de Belisário Franca, que aborda a religiosidade de quatro detentos do sistema prisional paraense, terá estreia nacional no 30º Cine Ceará- Festival Íbero-Americano de Cinema nesta terça-feira, 8, às 20 horas, no Cineteatro São Luís, em Fortaleza, e com transmissão on-line pelo canal do evento no Youtube. O filme participa da mostra competitiva de longa-metragens, nesse festival, e inicia o circuito por outros festivais.

“Nazinha, Olhai por Nós”, da produtora carioca Giros, acompanhou por três anos a religiosidade de quatro detentos do sistema prisional paraense, tendo a devoção à Virgem de Nazaré como pano de fundo em 87 minutos de duração. A classificação é de 12 anos.

“Às vésperas do Círio de Nazaré, uma das maiores festividades católicas do mundo, quatro presidiários aguardam por um indulto especialmente concedido para aqueles que desejam celebrar Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da cidade de Belém”, descreve o jornalista paraense Ismael Machado.

Ele repete a dobradinha de sucesso do roteiro do filme “Soldados do Araguaia” com o diretor carioca Belisário Franca, que teve também o carioca Yan Motta se somando ao time de roteiristas além de assumir a edição do projeto. Ismael também assina o argumento e pesquisa junto com a jornalista paraense Michelle Maia. Outra paraense do projeto é a Lúcia Tupiassu, que trabalhou na produção com Michelle.

“O filme aborda a ligação dos detentos com a fé, só que há muito mais camadas a serem desdobradas no documentário em pouco mais de uma hora e meia de filme. Há histórias de vidas perdidas em busca de redenção, um sistema prisional brasileiro dado a fracassar, agentes prisionais trabalhando em situações de limites emocionais, fé, religiosidade, sonhos e famílias buscando se equilibrar entre o cotidiano e a atenção a seus entes aprisionados”, completa.

“Nazinha, olhai por nós” concorre com outros seis filmes no Cine Ceará. O longa encerra o que o diretor Belisario Franca classifica como ‘Trilogia do Silenciamento’, completando um ciclo iniciado com ‘Menino 23’, um mergulho nas memórias do sistema escravagista brasileiro, e ‘Soldados do Araguaia’, com as traumáticas memórias de soldados de baixa patente que participaram da Guerrilha do Araguaia e terminado agora com esse olhar profundo sobre as mazelas da vida carcerária representada em instituições presidiárias no norte do País.

“O filme surge a partir de uma ideia esboçada pelo diretor Belisário Franca de retratar algo diferente sobre o Círio de Nazaré. Eu e a produtora Michelle Maia sugerimos, inicialmente, acompanhar a tradição de presidiárias no concurso de pinturas sobre a festividade religiosa. A partir desse argumento inicial, o filme começou a ganhar vida”, acrescenta Ismael.

Desafios da produção

A produção do filme obteve a permissão de visitar as casas penais do Pará para entrevistar agentes, detentos e diretores de presídios, assim como juízes e advogados. Foi realizado um extenso trabalho de pesquisa e de coordenação pela produtora carioca, em reuniões com Belisário, a produtora executiva Bianca Lenti, Tupiassu e a coordenadora de produção Cláudia Lima.

“A pesquisa iniciou no segundo semestre de 2014 quando começamos a peregrinação nas casas penais à procura de personagens. Nem todos os personagens que encontramos inicialmente e nos pareceram bons, permaneceram na fase de gravações, quando a câmera também faz sua seleção natural”, detalha Michelle.

“Gravamos com muitos detentos e detentas previamente, mas a decisão final sobre os quatro que permaneceriam veio quando gravamos as missas preparatórias para o Círio, que ocorrem nas casas penais. Foi quando os quatro personagens se materializaram de forma clara: primeiro, para o olhar aguçado do Ismael, e depois, quando conhecemos a história de vida de cada um e testamos o desempenho no vídeo”, descreve a produtora paraense.

A equipe do documentário 'Nazinha, Olhai por Nós' visitou casas penais do estado para a produçãoA equipe do documentário 'Nazinha, Olhai por Nós' visitou casas penais do estado para a produção (Raimundo Paccó/ Divulgação)

Escolhidos os personagens, iniciaram os percalços. Um deles fugiu e até hoje não foi capturado. Ele era interno da Colônia Agrícola Heleno Fragoso, em Santa Izabel do Pará. “Ele era um personagem maravilhoso, era o tratador dos porcos e trabalhava cantando com uma voz poderosa, fugiu na saída temporária depois de gravar com a nossa equipe e, como o material dele estava incompleto, ele acabou ficando de fora (do filme)”, conta Michelle.

Outras situações forçaram a substituição de personagens, como o detento que foi assassinado numa das saídas temporárias, vitimado pelo “carro prata”, cujos atiradores não costumam ser identificados pelas autoridades policiais. Outro personagem também fugiu, mas se entregou novamente oito meses depois.

“Durante todos esses anos, a produtora Michelle Maia manteve contato estreito com os familiares das pessoas detidas, monitorando passos e desdobramentos de ações judiciais. Ela acabou virando amiga das famílias”, lembra Machado.

Entre as boas notícias do acompanhamento da vida dos internos, esteve o caso da personagem que engravidou e deu a luz durante a fase de filmagens. Hoje, ela está em liberdade e reconstrói a vida trabalhando com o pai em um município da Alça Viária. “Foi um caminho longo, intenso e emocionante. Nos envolvemos com os dramas, com as famílias e com os advogados”, completa Michelle.

 “Se em alguns momentos o filme parece claustrofóbico, encarcerando o olhar, muito se deve à fotografia de Thiago Lima, que consegue captar o ambiente prisional com rara sensibilidade. O ambiente interno das celas, o cotidiano, as pequenas alegrias, as frustrações, tudo é bem ilustrado sob o olhar da fotografia”, elogia o roteirista paraense.

“Esse é um filme que ganha ainda mais importância devido às mudanças ideológicas vividas pelo país atualmente. A vida das pessoas presas não vale quase nada. À sociedade esse é um universo que não interessa. Mas o que o filme mostra é a necessidade de se debruçar sobre esse problema. Ele existe. Não dá para jogar sob o tapete”, avalia Ismael.


Fonte: O Liberal/Cultura (Texto e Foto)

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