Carta de Lima Barreto à Austregésilo de Athayde

Em 18 de janeiro de 1921, Austregésilo de Athayde publicara no jornal carioca A Tribuna uma carta aberta a Lima Barreto, na qual, entre elogios, procurava estabelecer diferenças entre a obra dele e a de Machado de Assis. Esta é a resposta de Lima Barreto, escrita no dia seguinte e publicada vinte anos depois na Revista do Brasil.
Todos os Santos [Rio de Janeiro], 19 de janeiro de 1921
Meu caro senhor Austregésilo de Athayde,
Saudações.
Agradeço-lhe muito a bondade que teve, dirigindo-me a carta aberta que a Tribuna publicou, em 18 último.
Quisera, por miúdo, saber dos termos da excomunhão que mereci do padre-mestre Tadeu.
Não tenho nenhuma malquerença com os padres e mesmo com os frades de certas ordens. Se há algum anticlericalismo na minha pobre pessoa, é contra as irmãs de toda a sorte que dirigem colégios de gente rica. Essa gente nos faz muito mal; e, se algum dia tiver poder — revo­lucionário, por certo —, não só mando fechar todos os Sions que houver por aí, como expulsar do Brasil as irmãs.
Veja, portanto, que a minha curiosidade não é malsã, nem de ini­migo: é curiosidade. Não me sinto capaz de gabar-me de tê-lo desviado do seminário. Mesmo com grandes dúvidas sobre a Igreja, mas cheio de amor pelos homens e respeitoso diante do Mistério que nos cerca, o amigo, como sacerdote católico, podia prestar muitos serviços à humanidade.
Gostei que o senhor me separasse de Machado de Assis. Não lhe negando os méritos de grande escritor, sempre achei no Machado muita secura de alma, muita falta de simpatia, falta de entusiasmos generosos, uma porção de sestros pueris. Jamais o imitei e jamais me inspirou. Que me falem de Maupassant, de Dickens, de Swift, de Balzac, de Daudet — vá lá; mas Machado, nunca! Até em Turguêniev, em Tolstói podiam ir buscar os meus modelos; mas, em Machado, não! “Le moi”…
Machado escrevia com medo do [José Feliciano de] Castilho e escondendo o que sen­tia, para não se rebaixar; eu não tenho medo da palmatória do Feliciano e escrevo com muito temor de não dizer tudo o que quero e sinto, sem calcular se me rebaixo ou se me exalto.
Creio que é grande a diferença. Havemos de conversar, mesmo por­que preciso que me traduza aquele pedacinho de Horácio. De latim, só sei o que há nas páginas rosadas do pequenoLarousse.
Sem mais, etc. etc.
Lima Barreto
Major Mascarenhas, 26. Todos os Santos.
Lima Barreto. Um longo sonho de futuro: diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio de Janeiro: Graphia, 1998, pp. 284-285.