Artista negra e paraense é a protagonista de espetáculo 'Lerygou - Princesa do Pitiú'

 Apresentação será realizada em formato de live no Instagram de Assucena Pereira nos dias 19 e 20 de março às 20h

Alysson Lemos e Enoque Paulino

Há quase um século, a empresa fundada por Walt Disney é considerada uma fábrica de sonhos, contribuindo bastante para a construção do imaginário sobre o que é certo e errado para crianças de várias gerações por meio de suas histórias fantásticas. Por causa de toda essa influência, mais recentemente, as pessoas começaram a questionar o papel da Disney acerca de conceitos como representatividade e respeito às diferenças: no ano passado, o filme Soul  - que concorre ao Oscar de Melhor Animação em 2021- foi o centro de uma polêmica por apresentar o primeiro protagonista negro do estúdio Pixar, mas que passa boa parte do filme fora de seu corpo, representado como um espírito azul.

Crescendo sob a influência dessas princessas, animais falantes e criaturas mágicas criadas pela empresa do Mickey Mouse, a artista Assucena Pereira resolveu dar sua versão dessas histórias com o espetáculo "Lerygou - Princesa do Pitiú", onde, usando a palhaçaria, discute temas como sexualização do corpo negro, racismo e genocídio da população negra, tudo por meio da comicidade e da sátira. Em ambiente virtual, a artista utiliza do teatro de rua como base na criação do espetáculo, que será realizada em formato de live através do Instagram @cenasdeassu, nos dias 19 e 20 de março às 20h, totalmente gratuito.

“Eu acho que uma das minhas grandes inquietações era querer abordar esses temas, essas problemáticas, dentro desse cenário cômico. Anteriormente, eu fazia parte de uma dupla, e sentia que esses temas não eram tão abordados, sentia um silenciamento mesmo”, explica Assucena, destacando que teve o estalo para criar a produção do jeito que queria quando participou de uma oficina de palhaçaria como potência de vida. “Dentro dessa oficina, nós trabalhamos diversas vertentes da comicidade, e eu vi que era possível tratar sobre essa minha vulnerabilidade e encontrar o riso em meio dela. É uma abertura de processo, tudo muito experimental”, confessa.

Sobre o nome do espetáculo Lerygou, que faz piada com “Let It Go”, música tema do filme Frozen que foi um enorme sucesso lançado pela Disney em 2013, Assucena explica que até nisso há a junção do deboche com o debate de questões mais sérias. “Eu pensei na falta de representatividade dentro dessas histórias infantis. A gente tem poucos personagens negros no mundo da Disney, e os que têm, na maioria das vezes, passam a maior parte do tempo como animais. Então, eu quis trazer essa questão de Frozen para mostrar que tem outras princesas, e que todo mundo pode ser princesa, até porque, uma vez me disseram que eu não poderia ser, por ser uma mulher preta. Antigamente, eu trabalhava em festas infantis e escutava muito isso de diversas pessoas: que eu não poderia ser princesa, a não ser que eu emagrecesse e fizesse a Moana [personagem da Polinésia, subregião da Oceania]. Sendo animadora, eu acabaria fazendo outros personagens que não precisassem mostrar meu tom de pele”, narra Assucena sobre essas experiências que a marcaram.

Além de palhaça, ela é pesquisadora e professora, atuando desde 2014 no cenário artístico paraense, pesquisando comicidade, teatro político e teatro popular. Graduada em Licenciatura em Letras língua espanhola pela Universidade Federal do Pará e formada no curso técnico em teatro pela Escola de Teatro e Dança da UFPA. Assucena também é membro e fundadora do Zecas Coletivo de Teatro e integrante do Grupo Folhas de Papel e, com base em todas essas vivências, Lerygou - Princesa do Pitiú é a culminância de suas experiências, unindo a arte que ela aprendeu nas ruas e na academia com a necessidade de ser ouvida.

“Dentro desse cenário, eu faço o deboche total, vou tocar na ferida das pessoas. Tem os momentos também de quebra, em que eu dou o papo reto e falo que nós [população negra] estamos morrendo e que estar vivo é um símbolo político, um ato de resistência. Mas depois eu falo, ‘calma gente, é um espetáculo de comicidade, tá tudo bem’, explica, falando também sobre as adaptações que teve de fazer na produção por conta da pandemia. “Logo quando eu passei no edital da Secult, através da Lei Aldir Blanc, eu pensei nele para a rua. Eu trabalho muito na rua, queria que as pessoas pudessem interagir, mas devido a tudo que estamos vivendo, eu modifiquei para esse cenário virtual. As interações acontecem com o público virtual e com as pessoas que estão em isolamento comigo, minha equipe”, explica a artista.

Assucena conta que espera que os espectadores possam ser impactados de alguma forma pelo trabalho, refletindo acerca do racismo de um modo criativo, como apenas o humor é capaz de instigar. “Eu quero me comunicar acerca dos meus recortes sociais, enquanto mulher, palhaça, preta e gorda. O resto vem como consequência do trabalho, tento não me prender tanto nisso. Espero apenas que toque as pessoas de alguma forma, mas não tenho o controle de que maneira vai ser”, encerra a princesa da palhaçaria, mostrando que, como diz a letra da canção, por causa de sua arte, Assucena agora livre está.




Edição: Alek Brandão
Fonte: O Liberal (texto e imagem).

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